Sociedade
Distopia metropolitana
- . 10 de fevereiro de 2022
Em uma incerta madrugada de sonhos semeados ao longe, levantei de súbito, assustado com os ventos premonitórios, e calcei as pantufas macias ao lado da cama. Ao primeiro toque da pele contra a superfície, tive a certeza de que as pantufas, reconhecidas há meses de uso, não eram minhas.
O ano da má fortuna em dobro
- . 26 de janeiro de 2022
Um pensador deveras injustiçado pela fama é o florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527). Até hoje seu nome está associado a uma imagem sinistra. “Maquiavélico” é quem trama e engana, um calculista despido de valores; a personificação do capeta. Contudo, essa representação não é justa. É verdade que, contra o senso comum, Maquiavel não concebe como tragédia um político ocasionalmente desrespeitar critérios provenientes de fora do próprio campo da política. A completa sinceridade, por exemplo, pode ter grande valor na vida privada; na vida pública, nem sempre. Não está aí, porém, a marca principal do líder político maquiaveliano (o que pouco tem a ver com “maquiavélico”).
Lutos que trouxeram vida
- . 14 de janeiro de 2022
Onde começamos nós e termina a influência de tantos, já dizia Lya Luft, escritora e tradutora brasileira, e neste enredo proclamo que sou muitas, eis que fruto de infindáveis eventos e relacionamentos. Vale ponderar, em complemento, que a chegada ao mundo, em teoria, se fez nua de vestes e crenças, e à medida que fui inserida em uma grande teia de símbolos, observei padrões sendo construídos e eles permitiram um caminhar rumo a uma vida que denomino metamórfica.
Aposta na vida
- . 13 de dezembro de 2021
Peço licença aos leitores para continuar a conversa iniciada no texto do mês passado, dedicado à morte da cantora Marília Mendonça. Do fato e sobretudo do gritante contraste entre a vida pujante da jovem e seu fim tragicamente repentino, sugeri colhermos dois ensinamentos sobre o viver humano em geral.
Estudar é para os fortes
- . 6 de dezembro de 2021
O estudo é a expressão da vontade. Estudar é para os fortes, para quem possui coragem, resistência e respeito à humanidade. Precisa-se de força de vontade para controlar o corpo e direcioná-lo para uma atividade difícil, pouco atraente e, muitas vezes, desconfortável.
O bom professor se esforça não só para estudar e se especializar, mas também para trabalhar. Com condições adversas no âmbito profissional, salários insuficientes e caos institucional, os problemas que enfrentam exigem determinação, vontade dupla para fazer do seu trabalho uma contribuição séria e significativa.
Boas práticas em reuniões virtuais
- . 30 de novembro de 2021
Com a pandemia dando sinais de passagem e a vida social sendo retomada, as corporações têm se permitido resgatar práticas anteriormente comuns, mas que repentinamente se tornaram arriscadas, tais como idas diárias aos escritórios, viagens de negócios, reuniões presenciais e confraternizações no final do expediente.
Memento mori
- . 14 de novembro de 2021
A única certeza da vida é a morte. O dito em latim que dá título a este texto (“lembre-se da morte”) tinha justamente a intenção de evitar o esquecimento dessa verdade cruel que um dia se demonstrará a cada um de nós, sem distinção de classe, cor, gênero. Não por acaso, os seres humanos costumam demonstrar um respeito imenso para com a morte e os que a padecem, como que reconhecendo ali o próprio destino: o senso de humanidade nos manda prestar respeito até mesmo ao corpo de um inimigo.
O engenho literário
- . 8 de novembro de 2021
Para entender a importância da literatura em nossa vida, é necessário, em primeiro lugar, tentar definir o que vem a ser literatura e qual o poder dela sob nós — assunto que, talvez, pela pouquíssima frequência com que se é discutido em todas as camadas sociais, parece concernente somente aos eruditos, estudiosos e intelectuais.
O dia em que o zap parou
- . 25 de outubro de 2021
Numa canção, o saudoso Raul Seixas contou um sonho maluco: certo dia ninguém saiu de casa para trabalhar nem para ir à escola, os ladrões não foram roubar, os soldados não combateram, e por aí vai. Foi “o dia em que a terra parou”, cantava o refrão.
Quanto vale?
- . 27 de setembro de 2021
O filme Quanto vale?, disponível na Netflix (Worth, 2021) aborda em sua trama a criação do Fundo de Compensação às vítimas dos ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos e seu difícil trabalho de calcular o valor das indenizações a serem pagas pelo governo aos familiares. Baseado em uma história real, este fundo existe naquele país desde então, sendo responsável pelas indenizações aos cidadãos norte-americanos vítimas de outras tragédias nacionais.