Por Homero Santiago
Peço licença aos leitores para continuar a conversa iniciada no texto (link) do mês passado, dedicado à morte da cantora Marília Mendonça. Do fato e sobretudo do gritante contraste entre a vida pujante da jovem e seu fim tragicamente repentino, sugeri colhermos dois ensinamentos sobre o viver humano em geral: 1o) a tensa coexistência, em nós, entre a absoluta certeza de morrer e a incontornável incerteza quanto às circunstâncias de nossa morte; 2o) o fato de que viver geralmente implica, para nós, a construção de uma história e de expectativas de vida, as quais são cortadas pela morte, seja ela súbita (como no acidente de Marília), seja previsível (como no caso de um doente terminal). É a partir daí que gostaria de retomar uma interrogação que ficou em suspenso: como articular esses dois aspectos de nossa existência?
À primeira vista, a questão parece boba. Afinal, dado que vivemos, a conciliação não é impossível. O normal, aliás, é nem pensarmos no assunto. Todavia, se o intento for não somente constatar fatos, mas aprender com eles, convém perguntar em que termos essa conciliação inconsciente (nela não pensamos) se dá e o que está nela implicado. É aí que o assunto revela seu interesse. Tendo em conta as considerações anteriores sobre a morte de Marília, parece-me razoável a hipótese de que viver, para nós, humanos, sempre pressupõe algo como uma persistente aposta na vida.
Tento me explicar. Todo mundo tem certeza de que morrerá, só que ninguém pode estar certo (e essa incerteza é tão certa quanto a primeira certeza) de quando isso vai acontecer. Ou seja, quando comecei a escrever este texto, nada me garantia continuar vivo até concluí-lo. Ainda assim, como o leitor bem percebe, insisti na escrita, a despeito da incerteza. Embora isso soe banal com referência a um período de tempo tão curto, dá para dizer que, em essência, essa atitude insistente não difere daquela que subjaz um planejamento que se distende no tempo, por exemplo, a compra de um imóvel financiado por 15 anos. É essa insistência que eu gostaria de entender como uma espécie de aposta pressuposta por cada ato de um ser humano: a cada momento, “apostamos” que nossa existência se prolongará um pouco mais, para lá da possibilidade real da morte repentina, permitindo-nos fazer jus aos nossos planos.
Proponho chamar isso de “aposta” simplesmente porque, no caso, não podendo ter certeza, é como se nos víssemos obrigados a lançar mão de um ardil para lidar com o incerto. É como se, a cada ato, tivéssemos de esquecer ou desconsiderar a certeza da morte, justamente para poder continuar nossa história, criar nossas expectativas, realizar nossas intenções, viver — tal como ao jogar na loteria, atiçados pela amplitude do prêmio, desconsideramos a ínfima possibilidade de ganhar. Se não apostamos no incerto, perdemos logo de cara, com certeza — por exemplo, eu nunca teria escrito este texto.
Óbvio que esse tipo de aposta quase nunca é consciente; ninguém formula as coisas dessa forma. E é excelente que assim seja. Ficar pensando nisso, e portanto não parar de pensar na morte, provavelmente seria um empecilho à vida. Aqui, a ignorância faz as vezes de fiadora da sanidade; e não por acaso reconhecemos que algo não vai bem com aqueles que são incessantemente assombrados por pensamentos funestos. Imaginemos o que aconteceria a alguém que, a cada ato que fosse começar, se lembrasse da morte de Marília Mendonça e se deixasse dominar por essa estrondosa demonstração da fragilidade da vida humana? É bem possível que fizesse mais nada e caísse na inação, paralisado pelo medo de, a qualquer momento e sem aviso, ver os seus esforços se tornarem vãos — por que pagar um financiamento, por exemplo, se há o risco de morrer?
Pelo contrário, Marília morreu, num trágico repente, indo trabalhar, cantar, ou seja, seguindo o rumo que deu à própria vida. Ela morreu vivendo — o que, convenhamos, é muito melhor do que viver morrendo. O abismal contraste nos efeitos de cada uma dessas atitudes opostas salienta a importância de um ser humano apostar, nos termos acima sugeridos, no prolongamento de sua vida e no êxito de seus atos.
Concluiremos então que o viver implica a desconsideração de um saber, o da morte? E que, portanto, a ignorância seria melhor que o saber? Exato, ao menos nesse caso, já que a vida ativa surge como indissociável do ato de apostar no incerto a fim de contornar a certeza da morte. É um arguto arranjo de coisas. Tão importante quanto saber é, às vezes, ignorar o que se sabe. Visto que não podemos ter certeza do momento de nossa morte, mais vale deixar para lá o assunto e seguir apostando na vida, ou seja, fazendo nossos planos, curtindo nossas alegrias e, tanto quanto possível, afastando as tristezas, sobretudo o pensamento da morte, que ninguém duvida ser uma das maiores causas de entristecimento.
A todos os leitores, desejo um bom e cauteloso final de ano. Para 2022, façamos as nossas apostas e por elas torçamos (sem isso, o fracasso já está garantido)!
Homero Santiago
Livre-docente pela Universidade de São Paulo, onde é professor de História da Filosofia Moderna. Possui graduação, mestrado e doutorado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.