Por Renata De Luca
Com a pandemia dando sinais de passagem e a vida social sendo retomada, as corporações têm se permitido resgatar práticas anteriormente comuns, mas que repentinamente se tornaram arriscadas, tais como idas diárias aos escritórios, viagens de negócios, reuniões presenciais e confraternizações no final do expediente.
A discussão agora é o que vale a pena voltar e o que pode ser mantido, pois, surpreendentemente, trouxe bons resultados. Aquilo que parecia muito difícil, improdutivo ou fora de cogitação mostrou-se possível e, porventura, melhor que antes. Haja vista a prática do home office, que tem tudo para permanecer em muitas companhias que ficaram satisfeitas com a diminuição dos custos de ocupação e a qualidade da entrega do trabalho pelas pessoas.
Outra prática que permanecerá são as reuniões virtuais, que se multiplicaram exponencialmente nos últimos dois anos. A CNN Brasil disponibilizou alguns dados sobre a utilização das plataformas mais utilizadas para reuniões virtuais, que ilustram o quadro: o Skype aumentou em 70% seu número de usuários cadastrados desde março de 2020; a utilização do Meet é 25 vezes maior que em janeiro de 2020; o Zoom saltou de 10 milhões de usuários em dezembro de 2020 para 200 milhões em 2021 e o Teams contabilizou 32 milhões de usuários diários em março de 2020 e 44 milhões no mesmo período em 2021. (Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/business/com-pandemia-demanda-por-videos-conferencias -dispara -em -empresas).
Para além da necessidade, visto que as companhias necessitavam seguir operando quando perceberam que a quarentena não duraria apenas 40 dias e já tinham lançado mão dos primeiros recursos legais disponíveis (tais como férias antecipadas ou coletivas, afastamentos de grupos de risco e revezamento presencial), muitas se deram conta de que era possível substituir encontros presenciais por virtuais atingindo o objetivo e gerando economia de tempo e financeira com menos deslocamentos.
Seguiu-se então uma overdose de videoconferências, com reuniões ou lives sequenciadas que permitiram continuar trabalhando, criando, aprendendo, ensinando e se relacionando. Passado algum tempo, as pessoas começaram a demonstrar um inevitável cansaço, pois ficar diante de uma tela muitas horas seguidas exaure e o contorno dado pelo tempo no escritório perde-se facilmente, levando a um aumento da jornada e ausência de breaks saudáveis. A demanda por profissionais que cuidam de postura, de obesidade e de saúde mental explodiu. Atualmente, podemos mesclar o virtual e o presencial, e surgem discussões do que deve ser retomado ou mantido virtualmente.
Os benefícios do virtual são conhecidos: aproxima distâncias, facilita encontros, economiza tempo e dinheiro. Mas, e os malefícios? Para aqueles que pretendem manter seus encontros exclusivamente virtuais, vale ressaltar alguns cuidados: atenção com o clima organizacional, pois o distanciamento exige um cuidado a mais com a transmissão da cultura, visto que ela pode ser perdida na medida em que as pessoas não se encontram e não respiram o ambiente onde a cultura circula; atenção com a ideia de que o virtual aumenta a produtividade: para algumas funções, com certeza, principalmente se o trabalho exige concentração e análise individual, mas naquelas que exigem interação, trabalho em equipe e discussões com trocas, pode haver perdas substanciais.
Um ponto de risco é o aumento da distração nos encontros virtuais. As pessoas desenvolveram habilidades de demonstrar atenção e, ao mesmo tempo em que brincam com o pet, dão instruções para os filhos, espiam as notícias e as redes sociais, adiantam a caixa de e-mails e abrem diversas abas, enquanto “ouvem” um colega falar na reunião. Quem tinha dificuldade em prestar atenção ganhou um número grande de colegas distraídos e isso traz consequências na qualidade do trabalho. Algumas dicas podem ajudar:
– Um gestor deve avaliar quando sua equipe está dispersando, perdendo resultados e pedir um encontro presencial. Existem momentos em que é necessário trazer as pessoas para perto e olhar nos olhos.
– É educado manter a câmera aberta durante as reuniões de trabalho e isso certamente diminui escapes que distraem.
– Escolha um local reservado, com menos estímulo e de limites para as pessoas que moram com você.
– Delimite o tempo das reuniões. Encontros virtuais longos são mais cansativos e necessitam de pausas para descanso e reorganização dos pensamentos.
– O virtual pede condutas de etiqueta diferentes do presencial, pois deixamos de ter a referência de outros sentidos que ajudam na percepção: Quando falar? Em que momento interromper? Que tom usar quando o corriqueiro não está surtindo efeito? Para isso, as plataformas de videoconferência já possuem alguns recursos visuais, que nem sempre são utilizados, principalmente quando as discussões se acaloram.
Caberá aos gestores avaliar quando é o momento de manter virtual ou fazer encontros presenciais. Não existem receitas precisas, mas o bom senso ajuda muito. Nenhuma forma de comunicação é absoluta, inequívoca ou livre de problemas. Mas não se acanhe em experimentar, mesclar, avaliar riscos e repensar. Novos tempos trazem novos desafios.
Renata De Luca
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Diretora de RH da Security Segurança e Serviços, psicóloga (PUC/SP), psicanalista (IP/USP), mestre em Educação (FE/USP) e MBA em Gestão de Pessoas (FGV).