Por Homero Santiago

A única certeza da vida é a morte. O dito em latim que dá título a este texto (“lembre-se da morte”) tinha justamente a intenção de evitar o esquecimento dessa verdade cruel que um dia se demonstrará a cada um de nós, sem distinção de classe, cor, gênero. Não por acaso, os seres humanos costumam demonstrar um respeito imenso para com a morte e os que a padecem, como que reconhecendo ali o próprio destino: o senso de humanidade nos manda prestar respeito até mesmo ao corpo de um inimigo. As epopeias antigas contam que, em meio a guerras sangrentas, sempre se reservava um momento de trégua para que cada exército recolhesse e chorasse os seus mortos. Ainda hoje, é sinal de selvageria menosprezar um defunto.

Seja como for, embora saibamos que num ou noutro momento todos vão um dia morrer de uma forma ou de outra, fato é que nem todas as mortes se igualam nos afetos que em nós despertam. Querendo ou não, há mortes que nos comovem mais que outras, menos por conta da morte em si (em princípio, morrer é sempre morrer) do que pelas circunstâncias reafirmarem, com ênfase terrível, algo frequentemente esquecido. Talvez esteja aí uma das razões para tantos terem se sentido tão profundamente tocados pela morte recente da cantora Marília Mendonça.

Na sexta-feira, 5 de novembro, a fim de fazer uma apresentação, e portanto somente realizar o seu trabalho, coisa que devia ter feito inúmeras vezes ao longo da carreira, ela decolou da cidade em que morava com destino a outra, nem tão longe para os padrões aeronáuticos, num pequeno avião que acabou se chocando, ao que tudo indica, com fios de transmissão elétrica.

Esse enredo exaustivamente repassado pelos meios de comunicação comprova que nem todas as mortes se equivalem no poder de comoção. Não estou pensando na fama, que era enorme, de Marília. É verdade que uma pessoa famosa sempre chama mais a atenção, mas a questão aqui é outra: por que uma morte, nessas circunstâncias abruptas, nos abala tanto? Acontece que uma morte como a de Marília é diferente da morte, por exemplo, de alguém que por anos sofreu de uma doença grave e dolorosa, a ponto de os próprios parentes, quando falece o enfermo, exclamarem um consolador “Descansou!”. Presumo que passou pela cabeça de muita gente, mesmo de quem nunca deu bola para as músicas dela, algo assim: “Nossa, que triste!”, “Poxa, tão de repente!”, “Que morte besta!” — expressões que se usam para designar o fim que sobrevém do nada e mata por nada, algo especialmente comovente no caso de uma jovem que estava no auge.

Esse aspecto repentino e absurdo é que vale a pena considerar. Diferentemente de uma morte mais ou menos anunciada ou explicável, o acidente de Marília nos lança em face da morte em seu aspecto mais brutal e mais puro de corte fulminante no curso de uma vida promissora e de suas expectativas. Quem sabe, na véspera, ela não abraçara o filho e pensara mil coisas sobre o futuro dele, com os seus próximos combinara algo, não prometera ligar para um parente. Não dá para saber, mas tampouco importa. Interessa, sim, a partir desse caso, uma pequena reflexão sobre dois aspectos fundamentais da relação que nós, seres vivos, mantemos, sem alternativa, com a morte e com o medo que ela normalmente nos inspira — conforme o sugestivo dito popular, é a “indesejada das gentes”.

Primeiro, o episódio escancara um dos dados mais marcantes e peculiares da condição humana: a necessária convivência, em cada um, entre uma certeza (morreremos um dia) e uma incerteza (nunca estamos seguros do momento e das circunstâncias da fatalidade) igualmente absolutas. Claro que são possíveis intervenções deliberadas que interrompem uma vida, um ato suicida ou a pena capital, por exemplo; só que ninguém nasce suicida ou condenado à morte, o que repõe a incerteza. Uma condição que, compreensivelmente, costuma ser amedrontadora. Onde a morte nos alcançará? Ela não nos pegará no meio de algo importante? Como nos precaver da surpresa?

Um segundo ensinamento concerne, de forma paradoxal, ao que seja viver. Ainda que não saibamos definir com precisão o fenômeno da vida, a experiência da morte repentina desvela um aspecto essencial do que seja, para um ser humano, viver: constituir uma história de vida, fazer planos, criar e manter as expectativas de realizar tais planos. O que faz a morte, precisamente, é dar um fim a essa história, interromper uma linha de eventos que começa para cada um com o seu nascimento e que, mesmo sabendo com certeza que terá um fim, sempre imaginamos poder estender-se um pouco mais.

No fundo, estão aí dois aspectos inerentes a qualquer morte. O episódio da morte de Marília Mendonça simplesmente os torna mais vistosos e imediatamente perceptíveis. Sobra, porém, uma questão de suma importância: como lidar com o fato de que somos tão fragilmente mortais? Noutros termos, o que fazer com a pregnante e por vezes terrível certeza (somos finitos) de uma incerteza (ignoramos quando sobrevirá o fim)? Gostaria de continuar essa conversa num próximo texto (link).


Homero Santiago
Livre-docente pela Universidade de São Paulo, onde é professor de História da Filosofia Moderna. Possui graduação, mestrado e doutorado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

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