Por Gustavo de Oliveira

Nos jogos encontramos experiências únicas e que muitas vezes não conseguem ser replicadas em outras mídias. Porém, em sua maioria, suas histórias são muito similares ao que encontramos em filmes, livros e afins. Ao menos em estrutura, são poucas as narrativas que possuem uma identidade própria de videogames. Isso não é necessariamente um problema, afinal, são muitas as histórias poderosas e relevantes nos jogos.

Videogames são experiências lúdicas muito recentes na história do entretenimento. As primeiras exibições cinematográficas, por exemplo, remontam a 1895. Os livros já existem há incontáveis séculos, enquanto que o primeiro jogo de que se tem registro foi criado em 1958. Existe muito para se evoluir, ainda mais na criação de uma característica ímpar na hora de contar histórias. Porém, alguns criadores conseguem pensar em experiências que utilizam as técnicas únicas dos games para criar algo que não é possível em outros canais.

Esse é o caso de Sam Barlow, um designer, projetista e roteirista de jogos que nos últimos anos se dedicou a criar jogos com foco na história, que para alguns parecem filmes, mas que são exemplos perfeitos de grandes jogos. Criador de Her Story e Telling Lies, encontrou o auge de seu trabalho em Immortality, jogo lançado recentemente e que está indicado na categoria “Melhor Narrativa” no The Game Awards (o famigerado Oscar dos videogames).

Immortality é uma noite de detetive para quem joga. Podendo ser concluído em duas ou três horas, ainda assim deixa interrogações que permitem que o jogador se debruce sobre ele, encontrando mais de dezenas de horas de conteúdo. Acompanhamos a vida de Marissa Marcel, uma atriz francesa de nome e sucesso meteórico, que durante sua carreira estrelou três grandes filmes. Porém, estranhamente, essas obras nunca foram oficialmente lançadas. Seus admiradores encontraram registros em vídeo dos projetos inacabados, com bastidores e filmagens oficiais, para preservar seu legado artístico, mas também para descobrir o que aconteceu com ela, já que está desaparecida.

Nossa única interação com o jogo é dentro do banco de vídeos, onde podemos assisti-los e analisar seu conteúdo para encontrar pistas. Ao encontrar algo que chame a atenção, conseguimos ir para um registro que tenha aquele elemento em comum. Dessa maneira, acompanhamos e restauramos a história de três filmes de Marissa: Ambrosio, de 1968; Minsky, de 1970; e Um Par Para Tudo, de 1999. Na parte cinematográfica, Immortality é impecável. Os três longas são obras bem dirigidas, com os aspectos que representam muito bem a época em que foram produzidos.

No entanto, seu brilho está na possibilidade de viajarmos entre essas narrativas, respondendo a nossas dúvidas de acordo com nossos interesses. Em um caminho envolto em mistério, é possível confundir realidade e ficção. O grande quebra-cabeça é engajante e não aponta apenas em uma direção. As respostas são individuais, não apenas pela liberdade de descoberta, mas também pelos caminhos que podem ser percorridos. Immortality preza pelos subtextos e interpretações, indo além do que entendemos como uma história padrão e tradicional.

No final das contas, o jogo parece, num primeiro momento, um grande filme, mas que conta com uma mecânica que só é possível em jogos. A possibilidade de moldar a ordem dos eventos, perguntas e respostas é única, e acompanha as infinidades do mundo eletrônico. Videogames têm muito a aprender no meio narrativo, mas aparentemente eles já estão em um bom caminho!


Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.

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