Texto | GUSTAVO DE OLIVEIRA

No início dos anos 1990, em Staten Island, Nova York, o coletivo Wu-Tang Clan foi responsável por uma reconfiguração estética e estrutural do rap. O álbum de estreia do grupo, Enter the Wu-Tang (36 Chambers), lançado em 1993, é considerado um marco por ter redefinido o que se esperava de um disco de rap na época. Um elemento que diferencia o trabalho do grupo é sua forte influência dos filmes de artes marciais de Hong Kong, que não está apenas presente em samples e referências, mas na própria filosofia do coletivo.

Formado por nove membros — RZA, GZA, Ol’ Dirty Bastard, Method Man, Raekwon, Ghostface Killah, Inspectah Deck, U-God e Masta Killa —, o Wu-Tang era uma entidade descentralizada, em que cada voz possuía sua identidade e estilo. RZA, produtor e mente criativa por trás do coletivo, assumiu o controle das batidas e da direção criativa. Ele costurou o disco com samples de soul obscuro, efeitos granulados e, sobretudo, trechos de filmes clássicos de kung fu. Os filmes de artes marciais de Hong Kong, em especial os produzidos pelas Shaw Brothers nas décadas de 1970 e 1980, eram muito populares em bairros periféricos dos Estados Unidos, passando com frequência em canais de TV aberta e cinemas alternativos. Jovens negros e latinos viam naquelas histórias de guerreiros disciplinados, de honra e resistência, uma espécie de espelho cultural, uma possibilidade de imaginar a si mesmos como protagonistas de suas próprias jornadas, mesmo em um contexto social que lhes negava protagonismo.

A estrutura do grupo também refletia a lógica dos filmes de kung fu. Não havia um único protagonista, e sim guerreiros com estilos e habilidades distintas. Method Man tinha uma entrega carismática, quase teatral. Ol’ Dirty Bastard era imprevisível, com um estilo vocal rasgado e visceral. GZA trazia uma escrita mais precisa e reflexiva. Ghostface Killah se destacava pelas narrativas quase cinematográficas. E o álbum funcionava como a síntese de todas essas escolas.

A ligação com os filmes de Hong Kong não era apenas temática ou visual. Havia uma questão filosófica envolvida. Os filmes da Shaw Brothers, mesmo cheios de ação, eram profundamente ligados a ideias de disciplina, lealdade, resistência e transmissão de saberes. Para jovens negros da periferia nova-iorquina, que lidavam com a marginalização e a violência do Estado, ver esses valores em tela era uma forma de reconstruir uma identidade de poder e agência. O Wu-Tang Clan ressignificou essa influência dentro de um contexto urbano ocidental, criando um novo tipo de guerreiro: o MC.

O legado de 36 Chambers é imenso. Ele não só ajudou a consolidar o rap da Costa Leste numa fase de declínio comercial, como também influenciou incontáveis artistas, tanto no hip hop quanto fora dele. A maneira como RZA abordou a produção musical abriu caminhos para produtores experimentarem mais. A ideia de coletividade descentralizada inspirou outros grupos. E a forma como o Wu-Tang Clan incorporou referências culturais externas, no caso, os filmes de artes marciais, mostrou que o hip hop era uma linguagem aberta à fusão de influências.

Clique AQUI e ouça Wu-Tang Clan.


Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Imagens | Wallpapers

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