Texto | GUSTAVO DE OLIVEIRA

As maneiras como as pessoas se envolvem e se relacionam com narrativas artísticas variam infinitamente e o debate em torno do início de Red Dead Redemption 2 revela isso. Muitos jogadores consideram que a primeira parte do jogo é lenta e desnecessária, enquanto outros a defendem como fundamental para a experiência. Para discutir essa questão, é necessário olhar para o contexto histórico retratado no jogo e para o seu próprio processo de desenvolvimento.

Red Dead Redemption 2 foi lançado em outubro de 2018, após quase oito anos de produção. Desenvolvido pela Rockstar Games, o título era um dos projetos mais ambiciosos da indústria de videogames. A intenção da Rockstar não era apenas criar um jogo de mundo aberto tecnicamente avançado, mas também um produto cultural que dialogasse com a história dos Estados Unidos e com a tradição do Velho Oeste. Esse contexto ajuda a entender por que o início do jogo se distancia da ação imediata que muitos jogadores esperavam.

O prólogo de Red Dead Redemption 2 se passa em 1899, período marcado pelo fim do chamado “Velho Oeste”. A expansão territorial americana estava praticamente concluída, e o avanço da industrialização e das instituições estatais deixava cada vez menos espaço para grupos fora da lei. Nesse cenário, a gangue Van der Linde, protagonista do jogo, não enfrenta apenas a perseguição policial, mas também a transformação de uma sociedade que já não comportava o estilo de vida que representavam.

O jogo escolhe começar mostrando essa transição. Em vez de apostar em sequências de ação imediata, o prólogo coloca o jogador em meio a dificuldades materiais e existenciais. A gangue está escondida nas montanhas após uma tentativa de roubo fracassada, e as primeiras missões giram em torno da sobrevivência: encontrar abrigo, caçar para alimentar o grupo, resgatar companheiros em perigo. Essas atividades são frequentemente interpretadas como lentas, mas cumprem a função de construir a sensação de deslocamento e incerteza que define os personagens.

Esse início também é relevante por como dialoga com a história cultural dos Estados Unidos. O ideal do “destino manifesto”, a crença de que o povo americano tinha uma missão divina de expandir-se e civilizar o continente marcou profundamente o período retratado no jogo. Ao ambientar sua narrativa no momento em que esse ideal já não sustentava mais uma vida fora da lei, Red Dead Redemption 2 comenta diretamente sobre a identidade americana e sobre o processo de exclusão de modos de vida que não se encaixavam na nova ordem social.

A forma como o jogo apresenta esse contexto se conecta ao próprio gênero de mundo aberto. As extensas travessias a cavalo, a relação com o ambiente hostil e as dificuldades práticas reforçam a noção de que o Oeste já não era mais um território disponível para ser conquistado. O impacto dessa decisão fica mais claro ao longo da narrativa. O prólogo não é apenas uma introdução funcional, mas estabelece os temas que atravessam todo o jogo.

Red Dead Redemption 2 escolhe começar de forma diferente, aproximando-se de um comentário histórico. Essa escolha pode gerar estranhamento, mas também é o que garante a singularidade do jogo e explica por que, anos após seu lançamento, ele continua sendo discutido como uma obra cultural que reflete sobre a história americana.


Gustavo de Oliveira
Graduando em Jornalismo pelo Centro Universitário Carioca e técnico em administração. Redator desde 2018 com experiência em música e jogos.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Imagem | Divulgação | Wallpapers

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