Gabriela Scardone

Imagine uma fogueira, o primeiro clarão feito por um ser humano na história da humanidade. Agora imagine outros seres humanos se aproximando dessa fogueira, cada um, um universo inteiro. Um “Eu” absolutamente completo em si mesmo, até que o “Outro” apresentasse a primeira diferença, e depois o outro, e mais outro. Uma diferença que se por um lado nos delimita, nos identifica, e nos torna únicos, por outro nos aponta o vazio.

Porque há algo no olhar do outro que atravessa o meu olhar sobre mim, agora esse “eu” não é mais completo nele mesmo, agora esse “eu” precisa da diferença que só o outro pode lhe conferir, sobretudo na qualidade daquilo que nos é comum, de um “nós” que passa a ser entendido em comunidade, a partir de um sentimento “oceânico”, talvez o primeiro vínculo do ser humano com o mundo, como diria Freud em o Mal-estar na civilização (1930).

Essa questão tem um fundamento ético, pois se volta para o que os filósofos antigos chamariam de o “bem supremo,” inquestionável, pois justifica a nossa existência dentro de uma civilização. Na modernidade, o sentido da vida não é dado por nenhuma verdade transcendental que preceda a existência individual. Lévi-Strauss, em seu texto sobre “A eficácia simbólica” (1942), aponta para a nossa necessidade de criação de um sentido para a existência humana e de como isso não pode ser um ato individual.

Temos, portanto, um empobrecimento gradativo de razões filosóficas em profunda conexão com esse sentimento. Entramos para a modernidade servindo docilmente às razões do mercado, sem que haja uma forma de gozo nesse modo de vida, se não pelo que há de mais superficial, aparente e trivial. Dentro dessa estrutura simbólica, temos o mercado como o bem supremo, o dinheiro como um deus, e o individualismo como o modus operandi. São estruturas de poder em jogo, de um jogo já estava em curso quando chegamos, ou ainda como “reprodução das relações de produção”, como diria Louis Althusser em Aparelhos ideológicos de Estado (1970), na linguagem tópica de infraestrutura e superestrutura.

Não nos resta outra pretensão senão questionar essa vontade de verdade, entender o discurso como um acontecimento e desconfiar da soberania do significante.

 

Diante ainda dessa naturalização, seguimos alienados dos mecanismos de manutenção e controle de poder, como os procedimentos de exclusão. E diria Foucault em A ordem do discurso (1970): “O discurso está longe de ser esse elemento transparente ou neutro no qual a sexualidade se desarma e a política se pacifica”. E ainda que fosse arriscado considerar a oposição do verdadeiro e do falso como um sistema de exclusão, como ele diz, essa discussão nunca se fez tão necessária em nossa sociedade, sobretudo com os últimos acontecimentos políticos que tiveram como arma de disputa as fake news, na recente corrida presidencial tanto no Brasil como nos Estados Unidos.

Houve, na Grécia antiga, uma separação historicamente constituída sobre o discurso verdadeiro, a procura do conceito absoluto de cada coisa fora posta em xeque depois dos filósofos sofistas, uma vez que o sentido exato e uníssono da realidade não existe, se não quem diz, quando diz, como diz, onde diz e por que diz o que quer dizer. Cada qual com suas razões ou ainda fora delas, como diria Sigmund Freud, e que Foucault, não à toa, o revisita quanto entende que “a verdade” não existe, se não a vontade dela manifestada por meio das estruturas mesmas da língua postas em jogo e produzindo um efeito de sentido. Não nos resta outra pretensão senão questionar essa vontade de verdade, entender o discurso como um acontecimento e desconfiar da soberania do significante.

Marilena Chauí, em Convite à filosofia (1994), tece algumas reflexões sobre a ignorância e a verdade, sobre a incerteza e a ignorância, no caso, que a incerteza é diferente da ignorância porque é na incerteza que nos descobrimos ignorantes, visto que nossas crenças e opiniões não dão conta da realidade, pois sempre haverá alguma falha naquilo em que acreditamos e que nos serve como referência, tanto para pensar como para agir. Portanto, o espanto e a admiração, assim como a dúvida e a perplexidade, nos fazem querer saber o que não sabíamos, nos fazem querer sair do estado de insegurança ou de encantamento, nos fazem perceber a nossa ignorância e o desejo de superar a incerteza, e chegar ao desejo de conhecimento intelectual e da ação transformadora que este possui junto à sensibilidade.

E novamente nos flagramos diante da fogueira, olhando fixamente para ela: O que estaríamos a afirmar se não o que desejamos com isso? E, sobretudo, existe o outro nessa roda?

Gabriela Scardone – Entre o sensível e o inteligível do ser humano, mas sobretudo sobre o entre. Atualmente trabalha com educação em espaços expositivos de arte. É Analista do Discurso formada em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, e estudante de Psicanálise. Ama os seus gatos – aliás, os três!

 

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