Por Homero Santiago

No dia 30 de outubro de 1938, tropas marcianas aterrissaram na cidade de Grover’s Mill, no estado norte-americano de Nova Jersey, e tentaram ocupar os arredores; encontraram forte resistência dos terráqueos. O pavor foi generalizado em várias cidades do país.

Como é fácil deduzir, a invasão nunca existiu. Já o pânico coletivo foi bem real, após a rede de rádio CBS (Columbia Broadcasting System) interromper sua programação musical e noticiar em primeira mão que naves espaciais haviam desembarcado guerreiros alienígenas na Costa Leste dos Estados Unidos. Na verdade, era só uma encenação radiofônica concebida e dirigida pelo então jovem e desconhecido Orson Welles (1915-1985), que adaptara a ficção científica A guerra dos mundos, do escritor H. G. Wells (1866-1946).

Curiosamente, de pouco adiantou os ouvintes terem sido alertados no início da transmissão que se tratava de uma peça ficcional. Segundo cálculo da CBS, cerca de 6 milhões de pessoas sintonizaram o programa. Por incrível que pareça, grande parte dessa assistência acreditou que fatos reais estavam sendo noticiados. Houve sobrecarga nas linhas telefônicas, engarrafamentos nas ruas, pessoas buscando a todo custo escapar do perigo marciano. No dia seguinte, um periódico resumiu tudo com a manchete “Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos”. Inusitado e inédito, o caso tornou-se um marco na compreensão do poder dos meios de comunicação de massa, deixando-nos para reflexão algumas questões cruciais. Como milhões de pessoas puderam acreditar em tal patacoada? Seriam estúpidas? Todas eram vítimas fáceis e irremediáveis de qualquer besteira (hoje talvez se dissesse fake news) veiculada pela mídia?

Para tristeza dos que se reputam inteligentes e soem acreditar que a ingenuidade e a tolice sempre são atributos alheios, o equacionamento não é tão simples.

Dois anos depois da “invasão marciana”, resenhando um livro que trazia o dossiê completo daquele evento, com a narrativa detalhada dos fatos, depoimentos e o texto transmitido pelo rádio, o inglês George Orwell (1903-1950) se pôs perguntas semelhantes (a resenha pode ser lida no volume Sobre a verdade, da Companhia das Letras). A conclusão a que ele chega, sem nenhuma cessão ao simplismo, é tão instigante quanto terrível.

Afora a abertura e o fechamento, a encenação dirigida por Orson Welles na CBS foi toda ela apresentada sob a forma de boletins noticiosos e mencionava como fontes de suas informações outras estações de rádio reais. Dado isso, infere Orwell, parece que muitas pessoas se deixaram enlear pelo causo em virtude da combinação de duas crenças: primeira, “a peça era um boletim de notícias”; segunda, “todo boletim de notícias pode ser considerado verídico”. Imbuídos dessa confiança, muitos dos ouvintes estavam dispostos a acreditar, e efetivamente acreditaram, que a invasão era um fato real; por isso mesmo, pouquíssimos se deram ao esforço mínimo de verificação que a situação requeria, quer dizer, o ato trivial de sintonizar outra estação e confrontar as informações. Conclusão de Orwell: “Ao ouvirem que se aproximava o fim do mundo, eles acataram a notícia sem fazer objeção. Alguns imaginaram que se tratava, na verdade, de uma invasão alemã ou japonesa, mas a maioria acreditou na chegada dos marcianos, incluindo aqueles que só souberam da ‘invasão’ por meio de vizinhos, e até mesmo uns poucos que sabiam no início que estavam ouvindo uma peça radiofônica”.

Generalizando, é possível que um enunciado faça as vezes de “verdade” convincente menos em razão de seu conteúdo do que pela forma de sua enunciação e pela autoridade da fonte que a transmite.

No caso, a forma era a noticiosa; e ao envolver um conteúdo fictício, ela lhe repassou características que costumamos esperar da narração de um fato verdadeiro, inclusive combinando referências reais (a cidade de Grover’s Mill, por exemplo) a elementos fantasiosos. Com isso, a invasão tornou-se verossimilhante, isto é, ganhou semelhança com a verdade a ponto de poder imitá-la. Ademais, a notícia provinha de uma fonte que os ouvintes reconheciam como fidedigna ou, escutando-a em segunda mão, a partir de pessoas igualmente de confiança, como vizinhos; e daí provavelmente poucos terem se dado ao trabalho de averiguar o assunto. Em suma, verossimilhança, autoridade da fonte e boa-fé dos ouvintes soldaram-se, possibilitando que a real simulação (a peça radiofônica) de um fato irreal (a invasão marciana) produzisse efeitos reais (o pânico).

Para nós, que já pouco ouvimos rádio, mas navegamos sem parar num mundo virtual e em redes sociais que oferecem infinitos meios de manipulação, o mecanismo detectado por George Orwell exibe um potencial terrível. Algo daquilo que ele saberá como ninguém explorar no romance 1984: o uso ostensivo de simulacros de verdade forjados e manipulados pelo poder, o descalabro de um mundo em que a verdade esvanece sem que o falso torne-se reconhecível — o germe do autoritarismo.

Todo cuidado é pouco com as notícias!


Homero Santiago
Doutor em Filosofia, o professor Homero Santiago é livre-docente de História da Filosofia Moderna na Universidade de São Paulo.

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