Em entrevista para a revista digital INSPIRE-C, Milton Hatoum falou do seu último livro, A noite da espera, primeiro volume de uma trilogia intitulada Um lugar sombrio. Também conversamos um pouco sobre literatura e sobre o Brasil atual.
Data: 03/04/2019
Entrevistador: Ronaldo Campos
Fotos: Olga Vlahou
INSPIRE-C: Do que se trata o seu último livro, A noite da espera?
Milton: Esse romance é o primeiro volume de uma trilogia que se chama Um lugar sombrio. Levei aproximadamente dez anos para escrever os três volumes e agora estou revisando o segundo, que talvez saia entre setembro e outubro.
A noite da espera é um romance de formação de jovens que vivem em Brasília, onde morei entre 1968 e 1970. É de formação porque fala um pouco da formação moral, sentimental e política do grupo de personagens. Ele é ambientado em Brasília numa época muito difícil, num período de repressão, em plena ditadura militar, como o AI5, por exemplo, em dezembro de 1968.
No fundo é um romance que fala da experiência de cada um. Ele é composto de diários, fragmentos de diários e cartas. Não é um romance político. Ele fala de política, é claro, mas no centro da vida do personagem principal, Martim, há uma angústia moral que é o desaparecimento da mãe dele. Esse é o norte do romance, que tem algum parentesco com outro romance que publiquei em 2005, O cinza do norte.
INSPIRE-C: Existe uma música jamaicana com o seguinte refrão: “Seu corpo é seu templo”. Eu diria que sua mente é seu templo e não temos como escapar dela. Você acredita que o seu trabalho é projetar, assim como fazem os arquitetos, uma “habitação mental” para que as pessoas possam viver melhor?
Milton: A literatura não edifica porque ela não é um relato de autoajuda, uma receita de bem viver. A literatura problematiza as relações humanas. Ela trabalha e opera com conflitos e dramas humanos. Ela também depende muito da experiência do próprio autor e do narrador. Então, nesse sentido, quando você lê um livro, um bom livro, um clássico, por exemplo, você entende os dramas morais, os conflitos sociais, o sentido da história. Enfim, toda uma dimensão simbólica e histórica que está presente nos bons romances. Isso faz com que a literatura seja também uma forma de conhecimento, conhecimento do leitor, de nós mesmos e do tempo que a gente vive.
Muitas vezes a literatura nos permite compreender uma outra cultura. Por exemplo, quando a gente lê um romance russo, do século XIX ou começo do século XX, a gente entende o funcionamento da sociedade, a disparidade social, a vida daquele momento na Rússia, a vida dos camponeses, dos cidadãos em São Petersburgo, em Moscou; o mesmo acontece com o romance francês, o italiano ou o oriental. Então, a leitura social de um romance é importante e ao lado dessa leitura há também, e não menos importante, a leitura simbólica e a linguagem. Lembrando que é a linguagem que define um bom livro.
Não há de um lado o bem e do outro o mal, eles fazem parte da natureza humana.
INSPIRE-C: Uma vez, Guimarães Rosa escreveu a seguinte frase: “Existe é homem humano”. Antônio Cândido diz: “A literatura não corrompe nem edifica, mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver”. Você acha que a literatura dá conta da existência e consegue humanizar as pessoas?
Milton: Antônio Cândido, como sempre certeiro, quando diz que a literatura humaniza profundamente, quer dizer que o bem e o mal às vezes estão juntos. Não há de um lado o bem e do outro o mal, eles fazem parte da natureza humana. A literatura explora essa dualidade e esse convívio tenso entre o bem e o mal. Por exemplo, em Grande sertão: veredas há um embate entre o bem e o mal, entre Deus e o diabo, entre o lado bom do ser humano e o lado terrível, diabólico, destruidor, na figura do personagem Hermógenes, que é a suprema encarnação do mal. Aliás, estamos vivemos numa época em que o mal parece imperar.
Então, a literatura problematiza tudo isso. Ela coloca em questão as nossas certezas e fala dessa dualidade de uma forma complexa e profunda. Por isso a literatura é essencial para a formação dos jovens, para a formação do leitor, ou seja, para formar a nossa humanidade, porque ela não dá respostas e não explica. Ela problematiza.
INSPIRE-C: A literatura muda conforme muda a sociedade e os escritores acompanham essas mudanças. Mesmo assim, independentemente das mudanças, os escritores sempre têm um objetivo e intenções ao escrever um texto, assim como os leitores também têm seus próprios interesses ao ler um livro, que pode ser, por exemplo, por puro entretenimento, aperfeiçoamento ou aprendizado, ou como meio de análise e de crítica em relação à sociedade e à vida. Como você define a sua literatura?
Milton: Os livros que escrevi dependem muito da minha experiência de vida, das minhas leituras, da minha observação e do tempo que vivi. Por exemplo, todos os meus romances, A noite da espera, Dois irmãos, O cinza do norte, Relato de um certo Oriente, tem a ver com a minha vida. Porém, a partir do momento em que você escreve sobre a sua vida, ou retalhos ou passagens dela, elas já não fazem mais parte da vida do autor. A vida passa a ser transcendental, torna-se uma ficção.
Muita coisa da minha vida foi transfigurada, foi inventada, e o romance, de um modo geral, trabalha com a memória. Ele depende muito da memória do autor ou da autora. No meu caso, falo muito de Manaus, e de certo modo, da Amazônia. Das cidades por onde passei, das cidades onde vivi, como São Paulo e Brasília, que estão presentes no romance Dois irmãos. Acho que o desafio está em transformar toda experiência em linguagem, mesmo porque a literatura não é um retrato da vida, ela não copia a vida como queriam alguns escritores do naturalismo do século XIX. Ela é uma transcendência da vida.
INSPIRE-C: Se Aluísio Azevedo estivesse vivo, como você acha que ele escreveria O cortiço de hoje no Brasil?
Milton: O cortiço do Aluísio Azevedo é um dos grandes romances do naturalismo. Seria difícil escrever O cortiço hoje. O Brasil se tornou um país muito mais complexo. Os cortiços estão aí, nas grandes cidades, nas metrópoles, e hoje acho que seria um romance tão triste quanto o que ele escreveu, só que, talvez, com maior complexidade e com uma linguagem bastante diferente. Desde Flaubert houve uma grande mudança na maneira de escrever. A forma passa a ser muito importante e não mais apenas o conteúdo. Então, O cortiço de Aluísio Azevedo teria de passar por outra experiência formal. A descrição de lugares, ambientes, paisagens, de um quarto, de uma casa ou de um cortiço não pode mais ser exaustiva.
O cinema contribuiu para isso, assim como a televisão. Os escritores de hoje são muito mais concisos. A descrição é muito mais sintética e só faz sentido quando faz parte de um drama da personagem. Não há ou não deveria haver mais descrições gratuitas — apenas como ornamentação. Isso já não cabe mais na literatura moderna.
Muita coisa da minha vida foi transfigurada, foi inventada, e o romance, de um modo geral, trabalha com a memória.
INSPIRE-C: Uma vez Carlos Fuentes, escritor mexicano, disse: “Pobre México, tão perto dos Estados Unidos e tão longe dele”. Você diria que estamos tão perto do que e tão longe de quem ou do quê?
Milton: Fuentes fala do México e sua proximidade dos Estados Unidos, que ao mesmo tempo é um problema, como, por exemplo, a questão dos imigrantes mexicanos. A economia americana seria prejudicada sem a presença dos imigrantes. Não apenas mexicanos, mas toda economia contemporânea de um país desenvolvido depende da força de trabalho dos imigrantes e acho que o Brasil, de certo modo, está de costas para a América Latina. Nós dependemos deles, como eles dependem de nós, principalmente num mundo globalizado, mas sinto falta de uma proximidade cultural maior, por exemplo, não só com os nossos vizinhos de fronteiras, mas com nossos vizinhos mais distantes, como é o caso do próprio México e dos países da América Central.
Infelizmente não há esse diálogo fértil e profundo com os países hispano-americanos, e isso é um erro, porque temos histórias mais ou menos comuns. Apesar de falarmos outra língua, o processo histórico de colonização não foi muito diferente entre o Brasil e os outros países latino-americanos. De modo que teríamos muitas coisas para aprender com eles e vice-versa.
Mesmo a literatura hispano-americana é pouco lida no Brasil, com exceção do García Márquez e talvez um pouco do Vargas Llosa. Acho que um livro como o Pedro Páramo, de Juan Rulfo, que é um clássico, um dos grandes livros do continente, deveria ser mais lido pelos jovens. Assim como obras de Juan Carlos Onetti e de tantos outros escritores hispano-americanos.
INSPIRE-C: O que te inspira?
Milton: O que mais me inspira para viver são o afeto e as relações amorosas num sentido muito amplo. Não o amor piegas, sentimental, mas uma relação profunda com os seres. Eu sinto isso, não apenas no amor erótico ou carnal ou sensual, mas também numa espécie de relação compassiva com aqueles que sofrem. Não podemos esquecer que no Brasil há milhões de pessoas muito pobres que sofrem, de crianças que são muito pobres, de mães da periferia que sofrem. Porque há um mito de que o escritor sofre. Não! Nós sofremos como qualquer pessoa, mas o grande sofrimento físico, o grande drama moral existe sobretudo nas mães da periferia que às vezes não têm creches, moram sozinhas, criam os filhos sozinhas. Isso é uma monstruosidade.
Já para a literatura, é a própria vida que me inspira, os livros que eu li e as relações que tenho com as pessoas. O escritor se escreve sozinho, assim como o leitor lê na solidão, e o que move o leitor e o escritor, nessa viagem da literatura pela imaginação, é a solidão. Não consigo ler com muita gente ao meu lado, com barulho, porque a leitura das artes é a que mais exige concentração e um compromisso com as palavras, com a linguagem. Mas, ao mesmo tempo, não vivo encastelado. Participo da vida social, dou palestras para jovens ou aulas como professor.
Sobretudo neste momento tão difícil da vida brasileira é preciso falar certas coisas e é preciso também formar leitores, porque um país sem leitores, um país inculto torna-se mais perigoso. As mentiras, as inverdades, as manipulações são tantas que a gente deve estimular a leitura nos jovens, formar esses leitores com humildade, porque também aprendemos com eles.
INSPIRE-C: Agradeço muito a sua entrevista e obrigado por nos receber.



