Por Renata De Luca.
Ano novo, metas antigas. Não estamos nos referindo àqueles propósitos passageiros de janeiro, fugazes como as chuvas da estação. Mas ao que retorna, captura e repete, custando muito para ser combatido. Causa incômodo, mas não traz em si o propósito necessário para gerir mudanças.
Pode ser um comportamento que afastou amigos verdadeiros, um hábito que prejudica a qualidade de vida, uma relação empobrecedora ou o mais do mesmo que causou cansaço em alguém que parecia que nunca iria desistir. Trata-se de algo que parece ser maior que a razão, afinal, já foi coerentemente dito por gente próxima e do bem. Mas, sejamos honestos, nem precisava, pois já era mais do que sabido pelo próprio, podendo até ministrar aulas sobre o tema.
“O neurótico sofre de reminiscências”, escreveu Freud, conferindo à experiência passada a causa da neurose. Um conflito entre forças opostas foi gerado, sofreu a ação do recalque e daí para a frente se apresentará como uma representação substitutiva. Esta é a lógica do sintoma que certamente causa conflito, mas também gozo. Os caminhos poderão ser diferentes, mas ambos darão voltas e mais voltas sobre o problema: histérico, onde a reclamação contorna e o desejo é sempre insatisfeito ou obsessivo, onde repetidamente se faz presente uma tentativa de organização em torno do sintoma.
Sem saber disso tudo, nos organizamos em torno dos nossos sintomas, algo tão particular e próprio como o formato dos dedos, e a repetição estabelecerá padrões que nos acompanharão e funcionarão como verdadeiros obstáculos a qualquer propósito. Vamos falar de casos comuns: a avarento que adia sempre a viagem dos sonhos para poupar, o vaidoso cujas realizações precisam ofuscar a dos outros, o egoísta que dorme ao lado de quem passa o dia a desmerecer, o glutão que sofre para caminhar, o gente boa sedutoramente irresponsável… Tem na minha família, no seu condomínio e no clube da esquina. E qual é o problema? Nenhum, a não ser que sejamos convocados a mudar.
É mais ou menos como viver anos em uma casa organizada da mesma maneira e, ao retornar de uma viagem, tudo foi mudado de lugar. A sensação de estranheza, de desorientação e o persistente desejo de acomodar tudo como era antes, mesmo que evidências mostrem que está melhor assim. Tudo resiste à mudança quando nos referimos a esses sintomas estruturantes, ao que repetidamente volta, mesmo que se reclame muito disso (aliás, quase sempre há queixa provocando comoção em ouvidos inocentes).
“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro” (LISPECTOR, 2002). Clarice sabia da fragilidade do psiquismo e da função organizadora do sintoma, que se se repete é porque está a serviço de algo, tendo um papel nada desprezível. Por isso, os propósitos de fazer diferente a cada início de ano não bastam para promover mudanças, por mais que seja um desejo genuíno.
Grandes mudanças acontecem após disrupturas, quebras de continuidade, em que a fatura com o custo da repetição chega com evidências, juros e todo tipo de acréscimo. Melhorar a qualidade de vida após um susto com a saúde, cuidar da relação após quase perder alguém amado, realizar um sonho ao flertar com a finitude, sair após uma decepção abismal, mil vezes anteriormente anunciada.
Correndo o risco dos exemplos óbvios, vimos e continuaremos sabendo de pessoas que mudaram após acontecimentos marcantes, sem nem ao menos se darem ao trabalho de disfarçar. E por que o fariam, se geralmente essas mudanças são para melhor e passado o período de inevitável sofrimento, desfilam seus merecidos orgulhos e testemunham como estão melhores?
Os repetidores de plantão devem estar se perguntando se precisarão de rupturas abruptas para mudar o curso, caso contrário estarão fadados a caminhar feito zumbis com seus “jeitinhos de ser”. Mudar sem susto requer consciência, disciplina e muita persistência. Não tem autoajuda que dê jeito, pois não é um caminho que vem do outro, nem será breve. Não bastam os conselhos, a sabedoria alheia, a chuva de exemplos ou as promessas de ano-novo. Essas coisas são suficientes para startarem, mas não perseveram.
Por isso, em tempos de inteligência artificial, relacionamentos virtuais e internet das coisas sempre existirá espaço para o humano e suas vicissitudes, um dia após o outro, entra ano, sai ano. Não tenhamos medo, nem compaixão. Somos nós, com nossas dores, delícias e adoráveis incoerências.
Bibliografia:
Freud, Sigmund; Breuer, Josef. Estudos sobre a histeria (1893-1895). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Lispector, Clarice. Correspondências. Organização de Teresa Montero. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
Sobre a autora: Renata De Luca, psicóloga (PUC-SP), mestre em Educação (Feusp), MBA em Gestão Estratégica de Pessoas (FGV). Diretora de RH da Security Segurança e Serviços.