Texto | CAMILA BARRETO

Recentemente, o término da cantora Marina Sena e do ex-BBB Juliano Floss fez surgir, nos comentários das postagens, algumas discussões no mínimo interessantes sobre o amor. Não foram poucos os comentários no Instagram que diziam que, “nitidamente”, Juliano Floss gostava muito mais de Marina Sena do que ela dele. Tantos outros defendiam a cantora lembrando que intensidade não se mede por exposição, e que não performar afeto nas redes não significa amar menos.

Ao me deparar com comentários assim e considerando o cenário (nem sempre) amoroso em que muitos se encontram hoje em dia, não pude deixar de me perguntar: será que o amor é uma aposta, um jogo que estamos fadados a perder assim que houver uma entrega total?

Mais do que nunca, o amor parece ter um modus operandi muito bem delimitado — para não dizer, talvez, muito mais castrado. São inúmeras as normas e condutas que alguém deve seguir para não perder esse jogo: não se deve demonstrar muito interesse no outro, mesmo que se esteja realmente interessado; também não se deve responder rápido para não parecer desesperado; e não se deve, de modo algum, deixar o sentimento transparecer de forma real e latente.

No fim das contas, não se deve gostar mais do outro do que ele gosta de você, pois isso seria perder no jogo afetivo. Mas como é possível medir e quantificar, em termos reais e concretos, quanto o outro gosta de mim para que eu seja capaz de, ao menos, dosar o meu amor por esse outro de forma minimamente proporcional?

Quando o ato de se relacionar amorosamente se torna um evento tão burocrático cujo objetivo deve ser rentável, baseado em mínimo gasto emocional e máximo aproveitamento afetivo, o amor se torna uma aposta cheia de cálculos e ressalvas, em que poucos estão realmente dispostos a se aventurar. E tudo isso parece precisar fazer sentido prático, racional e palpável, o que, em se tratando de amor, é quase essencialmente impossível, já que, como explica a psicanalista Ana Suy em A gente mira no amor e acerta na solidão, “a gente não ama sem certa estranheza”.

Amar implica perder? O que esperamos ganhar com o amor? Até que ponto é aceitável negociar para se viver esse amor?

Não pude deixar de voltar a um trecho do conto de Clarice Lispector, que Ana Suy também retoma em seu livro: “Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente”.

É claro que amar exige certa temperança para que não haja uma perda total e fundamental do que somos, seja na figura do outro ou na expectativa de viver esse amor com e a partir do outro. Mas amar é certamente arriscar, apostar no encontro com o outro e na imensidão de possibilidades que se multiplicam por meio desse encontro de duas incógnitas plenamente vastas: a minha e a do outro.

Amar é perder. O amor é, sim, um grande equívoco, mas, como diria Ana Suy, é “um equívoco que dá dignidade à vida”. E só quem estiver disposto a perder poderá se aventurar nos amores mais deliciosos e imperfeitos, imensuráveis e reais que se pode experimentar nesta existência. Pois amar segue sendo um verbo intransitivo. ■


Camila Barreto é a vencedora do Projeto Escrita 2019 e, desde então, colabora como colunista da revista INSPIRE-C. É graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto Divulgação | Vitaly Gariev/Unsplash

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