Para falar sobre o programa de Pessoa com Deficiência – PCD da Besni, conversamos com a coordenadora de Gente e Gestão Roberta Vidal, com a analista de Recursos Humanos Ana Paula Alves de Melo Marujo e com o auxiliar administrativo Lucas Sousa Martins — contratado via PCD.
Para cumprir a Lei 8.213/1991, que obriga as empresas com cem ou mais funcionários a contratar pessoas portadoras de algum tipo de deficiência, a Besni implantou o PCD, já que estava abaixo da cota estipulada pela lei — de 2% a 5%, dependendo do número de funcionários registrados.
Realizada em 02/10/2018, na sede da empresa, na Praça Ramos, em São Paulo/SP.
Entrevistado por Ronaldo Campos
Fotografias de Olga Vlahou
Auxílio técnico: Vanessa da Silva Ribeiro, estudante de cinema

INSPIRE-C: Como surgiu o PCD na Besni?
Roberta Vidal: Trabalho na Besni há nove meses e, desde que fui contratada, recebi a demanda para cumprir a cota de contratação de pessoas com deficiência, já que a empresa estava com uma quantidade abaixo do estipulado pela lei. Apesar de não ser especialista em profissionais com deficiência, alocou-se essa especialidade no departamento de RH. Todavia, sabemos que existem empresas de porte muito grande que têm áreas específicas voltadas para a diversidade. Mesmo sabendo que precisava atender a um pedido administrativo, quis, desde o início, dar um tom humano, ético e de valorização da pessoa ao cumprimento da lei. E foi o que eu disse para a Ana Paula quando a contratei: vamos conscientizar, sensibilizar toda a equipe gerencial sobre a importância da contratação e retenção dessas pessoas e do diferencial que elas podem representar para o nosso negócio, tanto no sentido de aprendermos a nos relacionar com a diversidade como de elas estarem inseridas no mercado de trabalho.
Para isso, convidamos a Nalva (Marinalva da Silva Cruz, secretária adjunta desde janeiro de 2017 da Secretaria da Pessoa com Deficiência do Município de São Paulo [SMPED]), que fez um workshop de quase cinco horas com atividades lúdicas. Por exemplo, vivenciar a deficiência visual. E assim fomos dando pequenos passos para o que estamos caminhando em chamar de programa. Então, o que fizemos foi a contratação em grande volume de pessoas com alguma deficiência e, diferentemente de algumas empresas, não queremos, por exemplo, deixá-las em casa para apenas atender uma normativa legal. O que falei para a alta direção desta empresa é que elas serão produtivas. Elas terão um trabalho, serão cobradas por isso, serão tratadas, como disse a Nalva, com equidade e não com igualdade. Temos que respeitar as diferenças e, seguindo a ética e o trabalho, faremos uma real inclusão social.
Diferentemente de algumas empresas, não queremos, por exemplo, deixá-las em casa para apenas atender uma normativa legal.
INSPIRE-C: Existe no administrativo da Besni pessoas que fazem parte do PCD?
Roberta Vidal: Sim. Temos no RH uma pessoa, o Lucas, que foi selecionado pela Ana Paula para trabalhar em admissão de pessoas, que pertencia à nossa célula e agora pertence à folha de pagamento. Mas ele continua trabalhando no departamento de RH.
INSPIRE-C: Que legal! Podemos falar com o Lucas?
Roberta Vidal: Claro que sim!
INSPIRE-C: E toda contratação, até então, de pessoas com deficiência deu certo?
Roberta Vidal: Precisamos ser sinceros e falar dos casos que não deram certo. Por isso, estamos ajustando muitas coisas. Tivemos uma pessoa contratada para trabalhar no jurídico que infelizmente teve de ser desligada da companhia. Ela entrou com uma deficiência que se desenvolveu ao longo da vida, por conta de um acidente que ocasionou uma lesão cerebral. Ela era formada em direito, com experiência na área e entendemos que ela iria se desenvolver profissionalmente. Mas infelizmente isso não aconteceu.
O lado positivo dessa história é que entendemos que tratar as pessoas do PCD com suas devidas obrigações profissionais é fundamental. Existe uma preocupação com o lado da conduta no trabalho, da relação organizacional. Não achamos certo deixar um funcionário “encostado” simplesmente para cumprir certa quantidade de cota. Mesmo porque nossas equipes são muitos enxutas e contamos com o desempenho de todos.
INSPIRE-C: Não teria sentido mantê-la no quadro de funcionários…
Roberta Vidal: Sim. Mesmo porque foi um processo de desligamento transparente. Assim como outros poucos casos. Mas, no montante geral, casos desse tipo são raros em relação ao número de pessoas que fazem parte do PCD.
INSPIRE-C: E qual é esse número?
Roberta Vidal: Em torno de 70 pessoas.
INSPIRE-C: Então o PCD é um programa já encorpado…
Roberta Vidal: Quando se fala em programa… acho que foi isso que me assustou. (risos) Ainda não tenho um material estruturado que fale do PCD, uma apresentação…
INSPIRE-C: Mas vocês são o próprio programa. (risos)
Roberta Vidal: Isso! O programa sou eu, a Ana Paula e a nossa equipe. São elas que estão conduzindo as ações junto com os parceiros, contratando as pessoas, acompanhando ações nas lojas… Tudo que pude fazer sem custo para a empresa foi feito. Preciso apresentar esse número para a diretoria, pois tivemos uma economia significativa. Por exemplo, para cada vaga contratada no regime CLT multiplicado pelo valor da consultoria para cada contratação, imagine o dinheiro que isso representaria em um ano.
INSPIRE-C: Então tem um ganho de resultado financeiro para a empresa.
Roberta Vidal: Tem um ganho financeiro, de resultado, e outro de longo prazo. Quando estruturarmos de fato o programa, teremos muitos ganhos, inclusive o de inclusão social, que é muito mais voltado para a sustentabilidade do negócio. Existem empresas que não atingiram a cota e mesmo assim foram reconhecidas pelo Ministério do Trabalho como uma inclusão real. É isto que importa: o que podemos agregar de valor ao negócio?
INSPIRE-C: Resumindo: de uma necessidade legal, surgiu o PCD na Besni?
Roberta Vidal: Perfeito!
INSPIRE-C: A partir dessa necessidade, vocês perceberam que o motivo real é que todas as pessoas que participam do PCD devem ser produtivas e para isso precisam ter responsabilidades, metas, cobranças etc.
Ana Paula: A verdadeira inclusão é fazer com que as pessoas realmente trabalhem, deem resultados, recebam seus salários, sejam cidadãs. Que se sintam úteis.
Roberta Vidal: É isso que chamo de ser produtivo. Você precisa se sentir útil e gerar uma renda. Tem pessoas com deficiência que se tornaram alicerces da família. Muitas vezes o salário deles passou a pagar o aluguel, as refeições etc. Tudo isso traz dignidade para a pessoa.
Minha expectativa, enquanto profissional de RH, é que o PCD se torne um grande programa. Por enquanto estamos na fase 1, que é o momento das contratações. A próxima fase será de retenção — queremos reter os melhores talentos e depois que cresçam profissionalmente.
Um exemplo bacana disso que estou falando é o Alan. Ele tem uma deficiência intelectual, trabalha na loja de Interlagos e não foi contratado pelo PCD. Ele está na empresa há muito tempo. Eu me apeguei no exemplo dele no sentido de que ele busca uma carreira profissional. Inclusive recentemente chamou a gerente dele para saber quando ele irá assumir a gestão da loja.
Outro caso é de um autista que trabalha na loja de Taboão. Profissionalmente falando, ele está se saindo muito bem, claro que dentro das limitações. Acho que é isso que importa. Aos poucos vamos plantando uma semente dentro das pessoas que vão se descobrindo, tanto como indivíduos quanto como profissionais.
Esse desejo de ser produtivo, de querer sair de casa, de parar de se sentir vítima. Isso é muito importante!
Esse desejo de ser produtivo, de querer sair de casa, de parar de se sentir vítima. Isso é muito importante!
INSPIRE-C: Onde são recrutados os profissionais que farão parte do PCD?
Roberta Vidal: Temos várias fontes: o mercado como um todo, empresas e sites especializados, que divulgam os currículos dos profissionais, tais como Catho, Infojobs, entre outras. E, por fim, também contamos com algumas parcerias. Por exemplo, a ITS, uma instituição que trabalha com inclusão. No caso deles, o mais interessante é que não tem custo para contratá-los. Os serviços que eles prestam chama-se emprego apoiado, que vai além do envio dos currículos dos candidatos para as empresas. Após o envio dos currículos, eles auxiliam com a documentação do candidato aprovado no processo seletivo e o primeiro mês de trabalho é acompanhado por um especialista da ITS que monitora a adaptação da pessoa nas funções profissionais.
INSPIRE-C: O que é ITS?
Ana Paula: O ITS é uma ONG que conta com o Pronas (Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência), que é do governo. Eles conseguiram uma verba com o foco de auxiliar as empresas e os candidatos para o projeto de inclusão social.
O lado ruim é que é um projeto, e não um programa, e tem um prazo para terminar, em dezembro deste ano. Eles serão privatizados no ano que vem e a partir daí haverá custo. Será uma grande perda, já que a nossa parceria com eles vem desde o começo deste ano.
Roberta Vidal: O ITS é o nosso principal parceiro para contratação de pessoas com PCD. Eles atuam de maneira excelente, os candidatos são ótimos, as pessoas que eles indicam para o processo seletivo são mais qualificadas que a média geral dos candidatos.
Outra ação importante que a Besni faz é estar presente em feiras específicas para contratação de pessoas com deficiência. Mas por enquanto não chamaria essas ações de um programa, e sim de uma ação de busca e contratação para o cumprimento da cota. Ao mesmo tempo, gostaria que o logo criado para o Besni Inclui deixasse bem claro que não apenas incluímos pessoas com deficiências, e sim com uma série de particularidades, diria uma diversidade mesmo, já que faz parte do programa toda possível diversidade.
INSPIRE-C: Como é planejada a carreira das pessoas com PCD?
Roberta Vidal: Esse é um dos principais desafios da minha contratação, ou seja, estruturar um plano de carreira que atenda todos aqueles que são recrutados e selecionados pela Besni, não importando se via PCD ou se por outra via. O segundo desafio é treinar e desenvolver todos os profissionais. Para isso, acabamos de contratar uma pessoa, especialista no assunto, que ajudará com esse trabalho.
Ana Paula: Para o ano que vem, o nosso foco será a retenção. Conseguimos reverter muitos possíveis desligamentos apenas entendendo o que estava acontecendo com a pessoa. Muitas vezes o problema que ela estava passando era muito simples. Por exemplo, a questão do horário por conta de uma adequação sistêmica para registro das horas trabalhadas. Uma vez que isso foi resolvido, a pessoa deixou de querer ir embora da nossa empresa.
INSPIRE-C: Podemos conversar com alguém contratado via PCD?
Ana Paula: Claro! O Lucas foi contratado via Catho. Ele tem deficiência física de nascença na perna. É a pessoa responsável pela verificação dos documentos dos novos contratados. Tem 19 anos, é muito parceiro e dedicado ao trabalho.
INSPIRE-C: Oi, Lucas. Tudo bem? Gostaria que contasse um pouco sobre sua experiência no PCD.
Lucas: Trabalho aqui há seis meses. A experiência está sendo incrível, pois nos outros lugares em que trabalhei, não tive a mesma recepção que tenho na Besni. O pessoal é muito receptivo, todos me aceitaram como se eu fosse um integrante antigo da empresa.
Estou aprendendo muito com o meu trabalho. No meu primeiro dia, não jogaram o trabalho no meu colo. Explicaram a importância e como cada tarefa deve ser feita. Todas as dúvidas que tenho, o pessoal sempre me explica com muita paciência. Sempre aprendo algo novo!
Para mim, o programa de inclusão da Besni está sendo muito bom, pois para aqueles que têm força de vontade, a empresa reconhece e dá espaço para o crescimento profissional.
INSPIRE-C: Agradeço muito a atenção de todos e parabéns pelos resultados que estão atingindo com o PCD.