Texto | RONALDO CAMPOS
O progressivo envelhecimento da população brasileira coloca em evidência uma tensão estrutural que o Estado não pode adiar: de um lado, o potencial produtivo e a autonomia dos idosos; de outro, a insuficiência das estruturas de cuidado disponíveis para essa faixa etária. Segundo o IBGE, em 2030 o Brasil terá mais pessoas com 60 anos ou mais do que crianças e adolescentes com até 14 anos — inversão demográfica que exige respostas simultâneas em duas frentes, sob pena de transformar o envelhecimento em crise social de amplas proporções.
Em primeiro lugar, é necessário reconhecer que os idosos brasileiros deixaram de ser sujeitos passivos no tecido social. Pesquisa coordenada pela professora Yeda Duarte, da Faculdade de Saúde Pública da USP, aponta que apenas 25% da população idosa apresenta limitação funcional — o que significa que três quartos dessa faixa etária são autônomos e produtivos. Durante a pandemia de Covid-19, famílias inteiras foram sustentadas pelas aposentadorias de seus membros mais velhos, evidenciando que a contribuição econômica dos idosos transcende o mercado formal de trabalho. Ignorar esse protagonismo é, portanto, desperdiçar capital humano consolidado e reforçar o etarismo que ainda permeia o ambiente corporativo e institucional brasileiro.
Por outro lado, o aumento da longevidade impõe ao Estado e à sociedade desafios concretos de cuidado que não podem ser relegados à estrutura familiar fragilizada. O exemplo japonês é emblemático: com 20% dos idosos acima de 65 anos vivendo na pobreza, o país registra crescimento de crimes cometidos por sobrevivência e mortes causadas por cuidadores exaustos — fenômeno que o Brasil, com seus 33 milhões de idosos e projeção de dobrar esse número até 2050, não pode se dar ao luxo de ignorar. A ausência de políticas públicas robustas de cuidado — como redes de apoio domiciliar, centros-dia e aposentadorias suficientes — transfere um peso desproporcional às mulheres e compromete a dignidade de quem mais envelheceu.
Conclui-se, portanto, que o envelhecimento populacional brasileiro exige uma agenda dupla e simultânea: valorizar a capacidade produtiva dos idosos, combatendo o etarismo e ampliando sua participação ativa na sociedade, e estruturar com urgência políticas públicas de cuidado que garantam dignidade a quem chega à velhice em condição de vulnerabilidade. Envelhecer com qualidade não é privilégio — é direito, e sua garantia é responsabilidade do Estado. ■
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Mari Lezhava/Unsplash