Por Mainá Santana

“Na guerra, a primeira vítima é a verdade.”
Hiram W. Johnson, Ésquilo ou Caio Fernando de Abreu

Meu pai era um senhor de respeito e longos cabelos brancos. As terras em seu domínio eram longas, a perder de vista, e eu me lembro como se fosse ontem do dia em que sentamos no alto de uma colina a observá-las. “Tudo isso que o sol toca é seu.” Respondi com uma pergunta e certo grau de admiração: “Tudo isso?”, e ele me confirmou. Seu Justiniano fazia jus ao nome. Um homem justo e íntegro que cuidava com zelo de seus pertences. Seu amigo de longa data, tio Procópio, arranjava as escrituras de aquilo que um dia seria meu.

A relação de carinho com meu pai data de meu nascimento. Vim ao mundo na primavera de 1937, duas horas passadas da finalização do programa Hora do Brasil, que meu amado pai não perdia por nada. Disse a minha mãe: “Essa criança sabe data e hora de nascer! Você acredita que os comunistas iam tomar o poder, mas Getúlio nos salvou dessa catástrofe! Esse bebê veio em comemoração à descoberta do plano. Vai se chamar Cohen”. Minha mãe, Maria, também estava radiante com o legado que deixaria para o mundo.

Infelizmente, a alegria do casal causava inveja, especialmente nos empregados. Ainda em tenra infância, minha família passou por um grave problema financeiro e meu pai precisou deixar-nos para fazer outros negócios que sustentassem nosso estilo de vida. Mamãe sofria a ausência de seu amado, mas tentava alegrar-se organizando festas e banquetes para seus familiares e amigos próximos. Era o seu modo de manter-se jovial para a volta de meu pai, rememorando suas tradições austríacas com os parentes. Os empregados e, por que não dizer, a família de seu Justiniano, consideravam isso um ultraje à essência brasileira de todos que moravam ali, alegando passar fome enquanto pessoas de fora se esbaldavam em comidas e bebidas mantidas por dona Maria. Mamãe não era vista como uma boa brasileira aos olhos da família de seu Justiniano e, assim, acabou sendo alvo de uma intriga. Espalhou-se o rumor de que havia dito aos empregados que se não podiam comer pão, deveriam tentar brioches.

Minha mãe então foi assassinada pelos terríveis empregados, que tomaram a casa e me enclausuraram em um dos cômodos. Cortaram-lhe a cabeça bradando “Bruxa, bruxa!” a plenos pulmões, coisa aprendida com uns empregados novos vindos de Salem (EUA). Tive sorte de logo cair nos braços de papai, que me resgatou e retomou todas as nossas terras. Com a ajuda de tio Procópio de Cesareia, vetor de grandes narrativas naqueles tempos, explicou a todos os envolvidos quanto tinha conquistado terras e dinheiros em seus negócios ao longo do tempo fora do Brasil, inclusive sofrendo uma facada para honrar seus compromissos. Tio Procópio, seu fiel escudeiro, relatava com detalhes de uma testemunha ocular dos ocorridos.

Depois de tantos percalços, nos estabilizamos. Ouvíamos rádio juntos, passeávamos no mato atirando em pássaros e, quando fiquei mais velho, ele me levava a casas da luz vermelha. Vez ou outra, recebíamos telefonemas de parceiros para deixar armamentos ou pessoas no porão, chamávamos colegas para uma pinga ou uma sinuca de bico. Nossas terras se espalhavam Brasil adentro, cada vez mais férteis e cheias de gado. Éramos felizes e em nossa tranquilidade eu me percebia crescer um adulto tão justo, responsável e cuidadoso quanto ele. Numa noite, ouvimos no rádio uma notícia em edição extraordinária; centenas de marcianos haviam pousado em uma cidade dos Estados Unidos, estavam invadindo a Terra e era questão de tempo até chegarem a nossa cidade. Meu pobre pai não aguentou mais essa emoção em sua vida, teve um infarto e entrou em coma antes do final da transmissão, que, descobri mais tarde, fora refeita depois de um sucesso em 1938. Meu mundo caiu. Passei tempos de minha triste vida tentando encontrar os malditos marcianos para provar que sua doença não havia sido em vão, deixando o pai e as terras sob cuidados de pessoas especializadas.

Foi quando, no dia do 430º aniversário da cidade de São Paulo, do 50º aniversário da Universidade de São Paulo, meu pai despertou de seu sono profundo. Os médicos foram categóricos em afirmar que ele não sobreviveria a um novo infarto, assim, eu precisava cuidar que ele não se alterasse. Jamais poderíamos deixá-lo perceber quanto o mundo havia mudado, então telefonei ao meu amigo de escola e jornalista Marcos, para que suavizasse as notícias que eu escutara falar sobre o clamor público contra o regime. “Marcos, meu caro, não precisa mentir nem nada, só mandar falar rapidinho sobre o comício e as 300 mil pessoas que estão pedindo eleições diretas. Diga que é uma festa, afinal, ouvi que artistas tocarão, gente farreando, dá pra passar.” Lembrei-lhe da relação de seu Justiniano e seu Procópio com a empresa, de quantos momentos difíceis haviam passado juntos e Marcos, um bom entendedor, ajudou com a reportagem.

Depois do veredito, precisamos organizar a casa para que ele não desconfiasse de nada. Continuávamos seguindo o toque de recolher e, como não era possível contar com meu amigo Marcos para o resto da vida, paguei alguns atores para simular programas televisivos pró-regime militar, tal qual aconteciam antes de seu infarto. Aqui faço um agradecimento especial à ajuda incomensurável de tio Procópio de Cesareia, que organizou os roteiros e registrou todo o nosso esforço como o bom historiador da família.

O episódio mais tenso desses anos de dedicação e cuidado foi quando meu adorado pai, da janela de sua casa, viu um dirigível passando com os seguintes dizeres: “Ninguém pode parar o Saddam!”. Era 2003 e estávamos em fervorosa com a nossa habilidade de contornar as questões de seu Justiniano, tínhamos todos os jeitinhos e contatos necessários. Enviamos um memorando à assessoria do Bush, informando a localização exata das armas químicas. “Elas estão na região ao redor de Tikrit (norte do Iraque) e em Bagdá, e ao leste, oeste, sul e norte de certa forma”(*). Juntando a fome com a vontade de comer, autorizaram a entrada dos militares americanos no Iraque; isso eu pude contar com cautela a meu pai, que comemorou essa vitória pelos 16 anos restantes de sua vida e de duração da guerra.

Enfim, hoje posso dizer que meu adorado pai descansa tranquilo, fazendo sua passagem de velhice. Depois de uma vida de agitações, foi viver em Alfa Centauri com os reptilianos e aguarda carinhosamente a minha chegada.

Mainá (Cohen) Santana é contadora de histórias desde tenra infância, graduada em distopias e especialista em distorcer fatos da realidade.

Referências

Artigo da Fundação Getulio Vargas sobre o Plano Cohen e o Estado Novo. Disponível em:  https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos30-37/GolpeEstadoNovo/PlanoCohen. Acesso em: 28 mar. 2019.

Filmes: Adeus, Lênin! (2003) e Maria Antonieta (2017).

Guerra do Iraque: (*)[sic] Donald Rumsfeld, secretário de Defesa, em entrevista à emissora ABC em março de 2003. Citado por BBC News | Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43479249 . Acesso em: 28 mar. 2019.

Imperador Bizantino Justiniano e seu historiador Procópio de Cesareia, artigo da Universidade Federal de Goiás. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/teoria/article/view/35120/18454 . Acesso em: 15 abr. 2019.

Livro História Secreta, escrito por Procópio de Cesareia (versão em espanhol): https://pt.scribd.com/document/366922005/Procopio-de-Cesarea-Historia-Secreta-pdf.  Acesso em: 15 abr. 2019.

Movimento “Diretas Já” noticiado pelo Jornal Nacional na Rede Globo em 25/01/1984. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3syHGJOXGi4. Acesso em: 5 abr. 2019.

Pedido de desculpas e explicações da Rede Globo sobre a notícia do Jornal Nacional de 25/01/1984. Disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/erros/diretas-ja.htm.  Acesso em: 5 abr. 2019.

Sobre as Bruxas de Salém da década de 1960. Disponível em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/quem-foram-e-como-morreram-as-bruxas-de-salem/. Acesso em: 21 jan. 2019.

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