Andrei Venturini Martins, doutor e docente em Filosofia. Autor das obras A verdade é Insuportável e Do reino nefasto do amor-próprio. Realizou o comentário e tradução da obra Discurso da reforma do homem interior, de Cornelius Jansenius.
Resumo: Atitudes equilibradas de pessimismo e otimismo são condições necessárias para atingimento das metas existentes no mercado. Porém, atitudes pessimistas parecem trazer mais resultados que atitudes otimistas.
Palavras-chave: economia de mercado, confiança, pessimismo
O princípio mais importante em uma economia de mercado é a confiança. A concessão de crédito depende da estabilidade desse princípio: só há crédito se o credor acredita que o devedor tem responsabilidade financeira para saldar seu compromisso. Se de um lado o devedor desfrutará de um bem no presente com a promessa de pagá-lo no futuro, de outro aquele que custeia o crédito acredita que o tomador irá produzir o bastante para saldar sua dívida. Mas se formos prudentes nos negócios a ponto de não nos esquecer de que sem o homem não há economia – e assim levarmos em consideração as inúmeras contingências às quais o homem está sujeito, certamente os valores morais que sustentam o mercado moderno – confiança e responsabilidade – poderão dissolver-se no ar. Vejamos.
O homem é inconstante e inquieto, de modo que uma palavra dada não é um testamento imutável. São inúmeras as fraquezas, tentações, paixões, dissabores, reviravoltas e tendências imorais que habitam o frágil coração humano, levando-o, talvez, à irresponsabilidade perante seus compromissos. É certo que a estrutura legislativa busca oferecer algum amparo para que o crédito confiado a um indivíduo, ou mesmo a uma grande empresa, seja de algum modo saldado; todavia, as leis que parecem resguardar o credor são incapazes de neutralizar todas as intempéries a que o homem está sujeito – falência, doenças, morte – as quais, por sua vez, colocariam a certeza de pagamento em xeque. É por este motivo que um profissional atento às tragédias que inviabilizariam um dado projeto assume uma postura típica do pessimismo cuidadoso, que pode ser um ingrediente importante para uma reflexão econômica que pretende integrar em seus gráficos e números as misérias da condição humana.
De algum modo, ficamos à mercê do caos.
O pessimismo é um modo de pensar permeado pela prudência, interessado em detectar os limites dos empreendimentos antes mesmo de projetar estratégias para vencer os obstáculos. Ele desconfia das esperanças utópicas que não consideram os possíveis erros que obliterariam o caminho previamente traçado, zela pelos valores da tradição que nortearam a ação do homem até o presente, e ao tomar uma decisão que lhe outorgaria alguma vantagem, não se esquece de entrever os revesses: um pessimista não deixa de considerar o pior dos cenários. Em sua obra As vantagens do pessimismo (Editora É Realizações), Roger Scruton nega-se a conceder o título de pessimista àquele que procura agir dessa maneira, considerando-o um otimista cuidadoso, pois é “alguém que mede a extensão de um problema e consulta o estoque existente de conhecimento e autoridade a fim de resolvê-lo”. Conhecimento das soluções já testadas e auxílio das autoridades que a tradição consagrou são fundamentais para ponderar as futuras decisões. A existência está sujeita a inúmeros solavancos, de modo que nenhuma abstração econômica ou legislativa é capaz de prever todos os incidentes que nos espreitam – a vida pulsa a ponto de sair do nosso controle. De algum modo, ficamos à mercê do caos.
Isso significa que tanto nos negócios quanto na existência, há limitações que podemos reconhecer, mas a imperfectibilidade humana não nos permite desvendar tudo. Se é verdade que “a sabedoria raramente está em uma única cabeça”, então a situação fica ainda mais crítica quando não se tem uma equipe de pensadores capazes de prever as possíveis reviravoltas de um certo empreendimento. Diante disso, caberia aos líderes compor grupos de trabalho que estejam permeados pelas mentalidades mais variadas, pois só assim serão avaliados os pontos e contrapontos, consideradas as teses e as antíteses, para que, enfim, a decisão verdadeiramente refletida seja tomada, promovendo uma ação mais prudente pelo embate das divergentes cabeças pensantes.
Em um trabalho de equipe, o otimista poderá imprudentemente proporcionar riscos. Por um lado, sabe-se que os riscos podem trazer em grande escala os benefícios previamente postulados, mas, por outro, podem colocar tudo a perder. Uma equipe composta só de otimistas é um tiro no escuro. Já o pessimista, radicalizando sua visão de mundo, cria um ambiente de extrema prudência que amplifica o conforto das decisões ao diminuir os riscos. Porém, uma equipe só de pessimistas torna-se cega quanto à possibilidade de alavancar números, deixando muitas vezes dinheiro na mesa. Percebe-se, pois, que tanto o posicionamento demasiado otimista quanto o pessimista têm seus pontos de estrangulamento. Buscando uma medida mais equilibrada, vejo no funcionário que consegue mesclar em si o otimismo do progresso e o pessimismo da prudência maior completude, otimizando os lucros quando possível e galgando voos mais modestos quando necessário.
Otimismo e pessimismo são temperamentos que não se aprendem nos bancos escolares ou universitários. As experiências da vida modelam o caráter de cada indivíduo, influenciando de algum modo suas ações. Caberá ao gestor detectar as características de cada funcionário e compor grupos de trabalho cujas diferenças são fatores relevantes para o sucesso.
Curiosamente, o profissional pessimista está em falta no mercado. O otimismo irresponsável venceu.