Por Ronaldo Campos
Sabe aquele exato instante em que deparamos com algo novo? Refiro-me ao exato instante, mesmo! Aqueles milésimos de segundos em que estamos absorvendo a novidade. Explico melhor. Quando é apresentado pela primeira vez a alguém ou a um produto, você olha, sente, prova, ouve e/ou toca — claro que os sentidos são usados conforme a situação. Quando apresentado a alguém, você não lambe o rosto da pessoa para conhecê-la.
Mas aqui, o que importa são as perguntas que vêm a nossa mente decorrentes dos sentidos: “Será que é verdade o que ele(a) diz?”, “Será que isso é bom mesmo?” etc. Pessoas dizem que não devemos julgar os outros. Sim, engraçado porque, quando dizem isso, já estão nos julgando e talvez o que queiram dizer é que não precisamos contar para os outros os nossos julgamentos. Enfim, essas perguntas e respostas mentais, sempre inevitáveis, criam duas situações invariavelmente decorrentes de nossos pensamentos e experiências: confiar ou desconfiar perante o novo.
Para David Hume, filósofo que viveu no século XVIII, o sujeito do conhecimento, ou seja, você, eu e todo mundo agimos de acordo com os sentidos e estímulos que recebemos de nossos órgãos sensoriais e que em seguida são armazenados em nossa memória. Portanto, para ele as ideias são formadas por hábitos mentais que temos das associações de impressões semelhantes ou impressões sucessivas. Exemplo: apesar de não termos nenhuma garantia de que o Sol nascerá amanhã, temos certeza de que isso ocorrerá. Por que temos essa certeza? Porque confiamos em nossas impressões sucessivas, isto é, como para nós o Sol sempre nasceu todas as manhãs, por experiência sucessível, confiamos que ele também nascerá amanhã.
Assim são construídas as relações de confiança: por impressões sucessivas. A nossa mente estabelece a relação de causa e efeito em relação a alguém ou a alguma coisa. Trata-se do mero hábito adquirido de se estabelecerem relações de causa e efeito entre as percepções (sentidos) e impressões sucessivas (resultados). Você se relaciona com pessoas, adquire produtos e consome serviços que causam impressões e cujo resultado sempre será o esperado. No final das contas, não haverá surpresa! É o famoso happy end. Temos o que esperamos.
Até pouco tempo atrás, muitos negócios e compromissos eram assumidos apenas com a palavra. Quem nunca ouviu falar da expressão “fio do bigode”? Em hebraico se chama kinian. As pessoas assumiam compromisso apenas dando a palavra como garantia. Um objeto era levantado entre elas e perante duas testemunhas celebrava-se o contrato. Outra expressão que se foi faz tempo é “vender fiado”. Por que será que elas não existem mais (pelo menos nos grandes centros)? Será que o comerciante fez as contas e viu que o prazo para receber do cliente não valia mais a pena? Duvido que tenha sido isso. E quanto à palavra dada, o tal do fio do bigode? Por que também não existe mais?
Esses atos de confiança não só entraram em extinção há muito tempo, como os poucos que ainda existem nos espantam quando ouvimos falar deles. Virou tão natural desconfiar de tudo e de todos que quando pagamos uma compra em dinheiro, o vendedor não se constrange em colocá-lo contra a luz para verificar se a nota é verdadeira. Atenção! Não estou falando de R$ 200 e sim de R$ 20 ou R$ 50, que mesmo com tarja de segurança, marca d’água etc. e com tudo o que há de mais sofisticado e seguro no mundo para fabricação de dinheiro, mesmo assim, a pessoa precisa dar o último veredito para certificar-se de que não somos falsificadores, caloteiros e pilantras.
Infelizmente, pelo menos por enquanto, escolhemos para nós uma sociedade que prefere acreditar que o Sol não nascerá amanhã de manhã. Que as percepções do outro são as piores possíveis e que as impressões sucessivas trarão resultados negativos. Hoje precisamos de contratos com muitos carimbos — quanto mais, mais autêntico é o documento —, que sejam assinados na frente do tabelião — vai que você não é você mesmo —, com selo holográfico e um monte de carimbo no formato do dedo indicador apontando para todos os lados do papel.
A única solução para o resgate e o predomínio da confiança na sociedade é a garantia individual de causa e efeito mental. É o compromisso com você mesmo de suas ações assumidas. Não são as olhadelas nas notas contra a luz, nem as tatuagens carimbadas nos contratos, câmeras, fotos, catracas, digitais etc. que garantem a confiança. Esses são mecanismos criados na tentativa de substituir ou de lembrar (só para utilizar um léxico mais simpático) o hábito relacionado às impressões sucessivas das causas e efeitos que construímos na relação com o outro. Afinal, a confiança anda de mãos dadas com a desconfiança — basta escolher em qual mão segurar.