Texto | RONALDO CAMPOS
Vivemos tempos em que desconfiar virou a regra. Num mundo saturado por contratos cheios de carimbos, assinaturas diante de tabeliões e notas de dinheiro analisadas contra a luz — mesmo as de vinte reais —, a confiança parece ter perdido seu valor original. Antigamente, bastava a palavra. Hoje, precisamos de provas. Mas o que explica essa mudança de comportamento social?
A filosofia pode nos ajudar a entender. Para David Hume, pensador escocês do século XVIII, nossas certezas são construídas pela repetição. Ele usava um exemplo simples: embora não tenhamos garantias absolutas de que o Sol nascerá amanhã, confiamos que isso vai acontecer porque ele sempre nasceu até hoje. Trata-se de um hábito mental: associamos causa e efeito com base em impressões sucessivas.
É esse mesmo princípio que nos faz confiar — ou não — em pessoas, produtos ou serviços. Quando um restaurante nos atende bem várias vezes, esperamos o mesmo da próxima. Quando alguém cumpre o que promete, tende a ganhar nossa confiança. Mas, ao menor deslize, todo esse histórico pode ser apagado.
Ao longo do tempo, práticas como a venda fiado ou o famoso “fio do bigode” perderam espaço nos centros urbanos. O que antes era tratado como acordo selado pela honra virou item de museu. E quando alguém ainda age assim, parece até exótico. A verdade é que nos acostumamos a esperar o pior — como se o Sol, de repente, parasse de nascer.
A sociedade da desconfiança exige mecanismos de controle: câmeras, senhas, reconhecimento facial, autenticações infinitas. Mas nenhum desses recursos substitui o que realmente importa: o compromisso individual com a coerência entre o que se promete e o que se entrega. Confiar é um ato construído com o tempo, mas pode ser desfeito em segundos.
No fundo, confiança e desconfiança andam lado a lado. Cabe a cada um de nós escolher qual delas vai guiar nossos próximos passos.■
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Marten Newhall