Texto | CAMILA BARRETO
Pegue a etiqueta de uma das suas roupas: é possível que encontre “Made in China” ou “Made in Bangladesh”. Tal roupa foi, provavelmente, vendida por um site americano e enviada para a América do Sul. Trata-se, portanto, de uma peça na qual várias marcas internacionais estão envolvidas, seja na produção, na distribuição ou na entrega. Isso é a globalização aplicada à moda. Nesse contexto, o fast fashion se destaca por acelerar esse processo, oferecendo coleções novas constantemente a preços baixos. No entanto, essa rapidez muitas vezes está ligada à exploração da mão de obra e à degradação ambiental.
A discussão sobre o impacto ecológico causado pela indústria da moda não é de modo algum recente. Contudo, é fato que a tecnologia elevou a problemática à sua enésima potência, tanto por conta da incessante disseminação de tendências de moda nos meios digitais, como ainda pela facilidade do consumo em escala global. Hoje em dia, não falamos mais de quatro coleções anuais que ditam as tendências de estilo, mas sim de microtendências que surgem — e desaparecem — na velocidade da luz nas redes sociais.
O modelo fast fashion de produção de vestuário surgiu em meados da década de 1970, propondo viabilizar mais lucro e, ao mesmo tempo, democratizar a moda, tornando-a mais financeiramente acessível para todos. Porém, por trás dessa “acessibilidade” se escondem realidades muito mais sombrias.
Segundo dados da ONU, todos os anos, são produzidos cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis globalmente, consumindo imensas quantidades de água. Desde o cultivo do algodão até o processo de tingimento e tratamento dos tecidos, são necessárias quantidades astronômicas de água e de diversos produtos químicos. Além de a produção desse tipo de material já ser extremamente prejudicial ao meio ambiente, ainda é preciso levar em conta que o poliéster leva até 400 anos para se decompor, causando um impacto ambiental de longa duração.
Como é possível notar, para que o sistema seja verdadeiramente rentável, utilizam-se materiais de menor qualidade. Logo, as roupas são inevitavelmente substituídas o mais rápido possível, e é justamente por conta dessa cadeia de produção que a indústria fast fashion dispara como a segunda maior poluente do mundo.
Os efeitos ambientais do modelo de ultra fast fashion também já são bem conhecidos: poluição dos oceanos por microplásticos — tanto na etapa de produção como no descarte do vestuário —, emissões massivas de gases de efeito estufa e acúmulo de resíduos têxteis em países que são transformados em lixões a céu aberto, como é o caso de Gana.
Para piorar, a indústria têxtil também explora trabalhadores, majoritariamente nos países do Sul Global, em condições análogas à escravidão. Como mostram os dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, publicados na revista da Agência Francesa de Transição Ecológica, mais de 300 milhões de pessoas — em sua maioria, mulheres — trabalham no setor têxtil, com salários miseráveis: às vezes apenas 18 centavos por uma peça de roupa que é vendida por 29 euros em lojas como Zara ou Shein, conforme revelam os números divulgados pela CNN Style.
Diante de todos esses problemas, será que a solução é simplesmente parar de consumir roupas advindas do fast fashion? Obviamente que essa atitude gera um forte impacto positivo, mas a resposta não deve parar por aí. É fato que o fast fashion acaba sendo uma opção mais acessível para pessoas com menor renda que querem participar dos movimentos que a moda dita continuamente. Sem contar, ainda, que as vestimentas da indústria de moda rápida são mais inclusivas em questão de tamanhos do que outras marcas mais ecoconscientes.
Vale destacar, ainda, que nem mesmo as marcas de luxo escapam dessa tendência nociva de exploração. Recentemente, a marca italiana de cashmere Loro Piana, que faz parte do conglomerado de luxo francês LVMH há pouco mais de uma década, foi colocada sob administração judicial pelo tribunal de Milão por estar supostamente envolvida em exploração laboral.
É por isso que não basta simplesmente pedir aos consumidores, especialmente os mais pobres, que deixem de comprar fast fashion sem levar em conta a complexidade do problema. Se por um lado é verdade que o consumismo excessivo alimenta esse modelo destrutivo, por outro, seria injusto ignorar que são justamente as populações mais vulneráveis que sofrem as consequências mais graves em toda e cada etapa do processo de produção.
O verdadeiro desafio, por fim, é saber se estamos prontos, coletivamente, para questionar esse modelo econômico a fim de construir uma indústria têxtil verdadeiramente justa e sustentável para todos. No fim das contas, é difícil acreditar que o tempo e o mercado estejam a nosso favor. O futuro continua, por enquanto, sob a ameaça constante da moda do colapso ambiental.■
Camila Barreto é a vencedora do Projeto Escrita 2019 e, desde então, colabora como colunista da revista INSPIRE-C. Atualmente, cursa Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Diagramação e capa | RONALDO CAMPOS
Imagens mídias | Agência Francesa de Transição Ecológica e CNN Style