Texto | RONALDO CAMPOS
A inteligência artificial ocupa hoje o centro de algumas das maiores expectativas econômicas do mundo. Empresas investem bilhões em novas tecnologias, investidores apostam em ganhos futuros e especialistas projetam transformações profundas na forma como trabalhamos, produzimos e nos relacionamos. Entretanto, ao lado do entusiasmo, cresce uma preocupação menos visível: a possibilidade de que sistemas cada vez mais poderosos gerem riscos difíceis de controlar.
Ao longo da história, os mercados financeiros demonstraram grande capacidade de incorporar ameaças aos preços dos ativos. Crises econômicas, conflitos armados, desastres naturais e mudanças regulatórias costumam ser avaliados por investidores, seguradoras e analistas. Contudo, a inteligência artificial apresenta um desafio diferente. Seus riscos mais extremos não podem ser estimados com precisão porque faltam experiências anteriores capazes de indicar sua probabilidade e suas possíveis consequências.
Essa situação revela uma limitação importante dos mecanismos tradicionais de gestão de risco. Quando não existem dados suficientes para calcular cenários futuros, torna-se difícil desenvolver seguros, contratos de proteção ou estratégias de investimento capazes de oferecer segurança. Em outras palavras, há ameaças que não podem ser simplesmente transformadas em números ou transferidas para terceiros.
Isso não significa que o avanço da inteligência artificial deva ser interrompido. Pelo contrário, seus benefícios potenciais são enormes e já podem ser observados em áreas como saúde, educação, pesquisa científica e produtividade empresarial. Porém, quanto maior o poder de uma tecnologia, maior deve ser a responsabilidade associada ao seu desenvolvimento.
Por essa razão, a construção de mecanismos de governança, transparência e supervisão torna-se fundamental. Reguladores, empresas, pesquisadores e governos precisam atuar de forma coordenada para reduzir riscos antes que eles se tornem problemas concretos. Afinal, quando as consequências de um erro podem atingir toda a sociedade, confiar apenas na capacidade do mercado de precificar ameaças talvez não seja suficiente. ■
Texto inspirado no artigo You can’t trade your way through the AI apocalypse, publicado pela revista The Economist.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Steve A Johnson/Unsplash