Texto | HOMERO SANTIAGO
Peço licença para retomar meu último texto neste espaço, sobre uma bela exposição de Rembrandt. Sem pretender repisar o já dito, o fato é que no curso da visita à mostra surgiu-me uma interrogação que gostaria de apresentar aqui.
Indo, vindo e me perdendo entre as gravuras do mestre holandês, a certa altura estacionei diante de uma representação do episódio bíblico em que o jovem José, assediado por uma dona, foge. Recordemos o entrecho: vendido escravo pelos irmãos, o jovem vai parar no Egito, na casa de Potifar, comandante da guarda faraônica, onde se destaca pela disciplina, inteligência e, aos olhos da patroa, pela beleza. A mulher tenta seduzi-lo de todas as formas, sem sucesso; certa vez, convoca-o a seus aposentos e o agarra; José a rechaça e corre.
A contemplação da obra atiçou-me a memória, remetendo-a diretamente a um mármore de Properzia de’ Rossi, singular escultora do século XVI, depositado na igreja de São Petrônio, na cidade italiana de Bolonha. Remissão nada casual. Outrora cheguei a publicar aqui um texto sobre essa peça que tanto me cativou, e acho que foi precisamente aquela impressão original que, intrometendo-se com as gravuras rembrantescas, veio então à tona. Ato contínuo, entrei a cotejar mentalmente as duas peças; mais tarde, em casa, reuni lado a lado fotografias de ambas, o que fez saltar aos olhos e corroborou ao intelecto alguns juízos formulados in loco.
Um pouco de atenção sobre as representações (e convido as leitoras e os leitores a apreciar as fotografias aqui disponíveis) é suficiente para perceber as diferenças. Algumas se explicam com facilidade em razão das respectivas técnicas (gravura e escultura) e épocas (o mundano XVII holandês não é o renascimento italiano classicizante). E as demais? Ei-las, as mais importantes, já que para lá do óbvio deixam despontar uma interrogação fundamental: parte da diversidade que detectamos nessas obras que figuram o mesmo episódio não podem ser atribuídas ao sexo do respectivo artífice?
Em Rembrandt, a mulher de Potifar está deitada e surge entre clamorosa e submissa, invertendo assim a hierarquia social; a nudez do corpo dessorado pela rejeição tem algo de rude, com as partes íntimas quase à mostra; José, de sua parte, parece enojado, sua mão direita realiza um característico gesto de evitamento ao passo que a cabeça se inclina, revirando os olhos e tornando a face visível só de soslaio; o desprezo dá a tônica de sua postura.
Acho que foi exatamente o sentido configurado por esses detalhes que me perturbaram, fazendo erguer-se do passado ao presente a visão do mármore de Properzia. Ela leu o mesmo episódio bíblico, mas interpretou-o e esculpiu uma leitura assaz diversa, se não inversa, à de Rembrandt. A escultora apresenta-nos a esposa do chefe da guarda impulsiva, o seu gesto ocupa o centro da cena; de seus grossos braços, um agarra a veste do fujão e o outro, apoiado sobre uma cama representada em escala menor que a do corpo, sugere enorme segurança. É como se a mulher tomasse conta de tudo. Ao passo que as suas vestes estão bem assentadas, as de José revoam à fuga. Ele não revira a cara nem a despreza; ao invés, o esvoaçar da túnica materializa o susto e o terror que lhe atravessam a alma.
Reformulo então a intrincada dúvida nascida do contraste entre as duas representações do mesmo episódio: em que medida a diferença, não de técnica ou de época, mas interpretativa e gráfica, pode atribuir-se à diferença de sexos? Admito não ter boa resposta; ou pelo menos não uma que satisfaça a sanha dos que sonham pôr tudo preto no branco. E exatamente por isso desejei cá propor a questão.
Não tenho para mim que homens e mulheres (para ficar em só duas balizas mais comuns da miríade de gêneros que os humanos podemos assumir) sejam idênticos. Só que tampouco me sinto inclinado a exagerar e enrijecer as diferenças. Digamos assim: se por um lado é inegável que certos aspectos biológicos distinguem a fêmea e o macho da espécie humana, por outro é igualmente indubitável que muito mais os identifica. Aliás, no que concerne ao dado por natureza, desconhecemos até que ponto isso perdura intocado por fatores socioculturais; assim como não sabemos, inversamente, em que medida a entrada e a vivência no mundo da cultura guiam-se por um natural pendor. Por fim, e de suma importância, não é nada claro de que maneira se poderiam conceber inflexões de sexo no pensamento racional mais abstrato, entre cujas metas está o ser absolutamente comum.
Nessa quadra de indefinições, o melhor é fugir dos juízos rápidos e etéreos, tanto os que ventilam diferenças intransponíveis (“você diz isso porque não é mulher”, “você não sabe como é ser homem”) quanto os que sonham uma uniformidade supressora das especificidades. Nem 8 nem 80, como se diz. Em assunto tão espinhoso, a cautela argumentativa e a desconfiança conclusiva convêm, e indicam menos o vacilo da inteligência que o propósito de se guardar das preconcepções fáceis e, no mais das vezes, erradas. ■
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa | Fabrizio Garrisi | Wikimedia: This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 International license. You are free: to share – to copy, distribute and transmit the work to remix – to adapt the work.
Imagens | Divulgação