Texto | ANDERSON BORGES COSTA
Você se lembra da primeira vez em que se apaixonou? Tenho certeza de que essa memória você levará para sempre. A paixão foi correspondida? A paixão foi informada? Vocês namoraram? Se casaram? As histórias de amor estão presentes na vida de todos nós. Na coluna desta edição, quero falar sobre um dos romances mais controversos da nossa literatura, sobre a força do amor de Bentinho por Capitu em Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Bentinho é o apelido de Bento Santiago, que, na velhice, recebe a alcunha de Dom Casmurro (vale dizer aqui que casmurro quer dizer teimoso, cabeça-dura). E é justamente o Bentinho velho que escreve a sua história, desde criança até o final da vida, numa tentativa de “atar as duas pontas da vida e resgatar na velhice a adolescência”, ou seja, de rememorar, na velhice, a sua vida desde a juventude.
É aí que Machado nos entrega uma estratégia maravilhosa: Bentinho está contando a história de sua vida, desde criança, quando se apaixona por Capitu. Eles crescem, se casam e têm um filho. Mas Bentinho começa a desconfiar de que Capitu o trai com seu melhor amigo, Escobar. Corroído pelo ciúme, tem a forte suspeita de que o amigo é o pai de seu filho.
Machado de Assis entrega ao leitor de Dom Casmurro uma história de suspeitas, de ciúme, de uma possível traição. E ele brinca com a ideia de que todos nós traímos. O próprio ato de narrar na velhice a sua vida, descrevendo em detalhes o que aconteceu décadas antes, é um exercício sujeito à traição da memória. E Machado constrói essa narrativa com intertextualidades à peça Otelo, de Shakespeare, cujo tema é… a traição.
Com nomes que por si só já são uma história (Bento Santiago, Dona Glória, Fortunata), Dom Casmurro é um romance com fortes cores psicanalíticas, feministas, escrito por alguém que domina com perfeição a arte de contar uma história. Se você perguntar para cinco pessoas que leram Dom Casmurro se elas concordam ou não com a traição de Capitu, é bem provável que não cheguem a um consenso. Esta é apenas uma das grandes virtudes de ler esse romance incrível. Se ainda não leu Dom Casmurro, não deixe de ler. Se já leu, tente reler. Uma releitura vai entregar uma nova história a você.
Boas leituras! ■
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Editora: várias, entre as quais, Companhia das Letras

Anderson Borges Costa
Formado e pós-graduado em Letras (Português/Inglês/Alemão) pela Universidade de São Paulo. Professor de Português e Literatura na Escola Internacional St. Nicholas. Escritor, autor dos romances Professoras, Rua Direita e Avenida Paulista, 22, do livro de contos O livro que não escrevi e de peças teatrais.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Reprodução