Texto | RONALDO CAMPOS

Durante décadas, a Índia foi um paradoxo ambulante: um país-população, um país-mercado, mas não um país-fábrica. Mesmo após as reformas pró-mercado iniciadas nos anos 1980 e um longo ciclo de crescimento, o país não conseguiu desenvolver uma integração comercial e industrial capaz de sustentar uma manufatura exportadora competitiva. A análise que motiva este texto sugere que esse impasse histórico começa, enfim, a ser rompido — não por ajustes graduais, mas por uma guinada política de grandes proporções.

Os acordos comerciais de grande escala em negociação com a União Europeia e os Estados Unidos sinalizam algo inédito: a disposição da Índia de abandonar o conforto do protecionismo e enfrentar o risco da abertura. O gesto é ainda mais significativo por ocorrer sob um governo que, até aqui, fez do nacionalismo econômico um eixo central de sua política. Ao aceitar regras externas, prazos definidos e mecanismos rigorosos de monitoramento, o país parece reconhecer um fato elementar da economia contemporânea: não existe autossuficiência sustentável, apenas diferentes graus de dependência e cooperação.

O argumento central é simples, mas decisivo: a janela histórica está aberta agora — e não permanecerá assim por muito tempo. O deslocamento progressivo da China dos segmentos da manufatura intensiva em trabalho, provocado menos por escolha estratégica e mais por mudanças de custos e pressões geopolíticas, está liberando um espaço que será ocupado por outros países. Nesse contexto, ganha força a estratégia conhecida como “China Plus One”, pela qual empresas mantêm parte da produção na China, mas buscam ao menos um segundo país para diversificar riscos e cadeias de suprimento. Se a Índia falhar novamente em ocupar esse espaço, dificilmente surgirá outra oportunidade comparável.

O impacto concreto desses acordos aparece com nitidez no acesso aos mercados europeu e americano. Até aqui, a Índia competia em clara desvantagem em relação a países como Vietnã e Bangladesh, especialmente na União Europeia, onde enfrentava tarifas significativamente mais altas justamente nos setores mais intensivos em trabalho. Vestuário, calçados, brinquedos e eletrônicos — áreas decisivas para a geração de empregos em larga escala — tornaram-se, por isso, destinos naturais de investimentos que contornavam a Índia. Ao reduzir essas barreiras, os novos acordos não concedem privilégios, mas eliminam um obstáculo estrutural que a afastava das principais cadeias globais de manufatura.

Nada disso elimina os riscos no horizonte. A política comercial americana continuará sujeita a oscilações e decisões unilaterais, enquanto a União Europeia tende a impor exigências ambientais cada vez mais rigorosas, capazes de elevar custos para exportadores indianos. Do lado doméstico, persistem fontes de incerteza conhecidas: mudanças regulatórias abruptas, insegurança jurídica e uma relação frequentemente tensa entre o Estado e o investimento privado. Esses fatores não anulam o potencial dos acordos, mas lembram que abertura comercial, por si só, não dispensa previsibilidade e confiança.

Ainda assim, o movimento recente merece ser reconhecido pelo que é: uma inflexão estratégica rara na trajetória econômica da Índia. Ao apostar na abertura, o país não resolve automaticamente seus entraves históricos, mas altera o terreno sobre o qual eles podem, enfim, ser enfrentados. Se implementados com seriedade e acompanhados de reformas internas, os acordos em negociação têm o potencial de alinhar o peso demográfico indiano a uma base produtiva exportadora — algo que por décadas pareceu inalcançável. Não se trata de uma promessa de sucesso, mas de uma oportunidade real. Afinal, oportunidades como essa são raras na história econômica dos países.


* Com informações da The Economist

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Imagem capa | Mangalore Today

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