Texto | RONALDO CAMPOS
Em uma sociedade que valoriza a produtividade quase como medida de sucesso pessoal, até as férias podem se transformar em uma extensão do trabalho. O profissional parte para o descanso, mas leva consigo o celular, os e-mails, as mensagens e, principalmente, a sensação de que precisa continuar disponível. Dessa forma, o período destinado à recuperação física e mental pode começar sem que a mente tenha realmente deixado o ambiente profissional.
Nos primeiros dias, é comum tentar aproveitar cada momento, como se até o lazer precisasse ser produtivo. Planejam-se passeios, pesquisam-se lugares e acumulam-se atividades, enquanto a preocupação com o tempo restante aumenta. Paradoxalmente, quanto maior o esforço para “aproveitar” as férias, menor pode ser a capacidade de simplesmente descansar. Só quando o trabalhador reduz o contato com as obrigações começa a perceber que muitas delas não eram tão urgentes quanto pareciam.
Essa percepção deveria provocar uma mudança que ultrapassasse o período de férias. Se o indivíduo precisa se afastar completamente do trabalho para conseguir respirar, talvez o problema esteja também na maneira como organiza sua rotina. A tecnologia trouxe praticidade, mas, ao permitir que o profissional seja encontrado a qualquer hora, enfraqueceu a fronteira entre expediente e vida pessoal.
Por isso, férias verdadeiramente proveitosas não dependem da quantidade de lugares visitados ou de experiências acumuladas. Elas exigem a capacidade de interromper, ainda que temporariamente, a lógica da produtividade. Afinal, talvez seja somente depois das “férias” — quando finalmente conseguimos desligar a cabeça do trabalho — que o descanso comece de verdade. ■
Nota: Texto inspirado no artigo “The six stages of holiday-making”, publicado pela The Economist.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Vitaly Gariev/Unsplash