Texto | RONALDO CAMPOS
Poucas áreas do conhecimento despertam tanta desconfiança quanto a sociologia. Em diferentes países, tornou-se comum acusá-la de promover doutrinação ideológica sempre que aborda temas como desigualdade, raça, gênero ou pobreza. No entanto, confundir o estudo das desigualdades com militância política revela mais um preconceito contra a disciplina do que uma análise de seu verdadeiro papel na sociedade.
A sociologia não existe para dizer ao cidadão o que pensar, mas para oferecer instrumentos que o ajudem a interpretar a realidade. Assim como a economia investiga mercados e a ciência política analisa instituições, a sociologia busca compreender como as relações sociais moldam oportunidades, privilégios e limitações. Seu método consiste em observar evidências, identificar padrões e formular explicações para fenômenos complexos, sem que isso implique uma única resposta ideológica.
Esse trabalho, muitas vezes, incomoda porque expõe estruturas que beneficiam grupos privilegiados. Ao demonstrar, por exemplo, que determinados mecanismos financeiros favorecem a evasão de recursos ou enfraquecem a transparência democrática, a sociologia lança luz sobre problemas que afetam toda a coletividade. Questionar essas distorções não significa defender um sistema econômico específico, mas discutir como instituições podem funcionar de maneira mais justa e eficiente.
Além disso, a disciplina contribui para a formação de cidadãos mais preparados para a vida pública. Compreender conceitos como classe social, status, burocracia, capitalismo ou socialismo permite participar do debate político com maior rigor, evitando que esses termos sejam usados apenas como slogans ou rótulos.
Em tempos de polarização, é perigoso transformar uma ciência em inimiga apenas porque suas conclusões desafiam certezas estabelecidas. A crítica faz parte da produção acadêmica, mas ela deve se dirigir aos métodos e às evidências, e não a caricaturas ideológicas. Uma sociedade democrática precisa de menos desconfiança em relação ao conhecimento e de mais capacidade de analisar a realidade com espírito crítico. ■
Nota: Texto inspirado em artigo publicado na revista The Economist (“By Invitation | Afflicting the Comfortable”), de Brooke Harrington.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Mostafa Meraji/Unsplash