Juliano Caravela

A inspiração é um transbordamento em si.

Costumo dizer que as grandes ideias criativas não vêm da racionalidade da mente. Claro que a mente tem um papel importante no processo de criação, mas instrumental, que sucede a tomada de inspiração, pois a inspiração em si não se restringe a intelecto algum.

Em latim, muito antes de a inflexão anglo-saxônica tomar conta do linguajar do mundo contemporâneo, a palavra intelecto (intellectus) possuía raízes no grego antigo, na palavra nous, ou seja, espírito. O que se entendia por intelecto não estava diretamente atrelado à mente, à razão, tampouco à alma (psyquê), mas sim àquilo que antecede os dois primeiros: o espírito (nous). Talvez daí tenha surgido a palavra in-spiração, em-espírito.

Há um famoso adágio alquímico em latim que diz Ars totum requirit hominem (a arte requer o homem por inteiro). Isso sempre me chamou muito a atenção, pois em estado inspirador, o corpo todo é requisitado, não só o intelecto, mas também o corpo sensível, a sensorialidade corpada, as sutilezas do existir, a presença (inspiradora) que pode assolar tanto um fotógrafo, um pintor, um músico, como também um guerreiro, um espadachim, um arqueiro.

A raiz da inspiração do arqueiro é a mesma da do artista. Um fotógrafo, por exemplo, “flecha” com sua câmera, enquanto que o arqueiro “clica” com seu arco o alvo. Trata-se da mesma base, da inspiração que é fruto da presença, que é fruto de um instante existencial, de corpo, alma e espírito, tal como diriam os gregos em total integração com a vida, na vida.

Claro que depois de inspirado, você vai usar a racionalidade e a operacionalização do intelecto para decodificar, depurar, curar (de curadoria) a ideia criativa, concretizá-la, coisificá-la por meio de uma técnica, de um conhecimento específico, de um argumento, um conceito ou uma narrativa, o que for, mas o toque inicial acontece antes do pensado.

A inspiração é um estado que te atravessa, mas que também é atravessado por você.

Nietzsche dizia “não sou eu quem pensa”, mas sim “algo pensa em mim” (es denkt in mir). Poderíamos citar também o id (inconsciente) de Freud, o inconsciente vislumbrado por Jung, citar Espinoza e tantos outros que se deram conta de que aquilo que entendemos como intelecto não passa de uma pequena parte do que experimentamos diante das afetações do mundo e com o mundo, com a vida e na vida.

Certa feita, escrevi o seguinte poema:

Quando se está à disposição da poesia
o poeta simplesmente desaparece,
não há mais lugar para sujeitos nem objetos,
a palavra engravida-se, embaraça-se de si mesma
e, embriagada de vida e morte,
pode deixar ao menos a sorte
de um convite impessoal, sem endereço,
mas que te clame, te transborde por inteiro,
e nem mais uma gota.

A inspiração é um estado que te atravessa, mas que também é atravessado por você. E não se iluda, a inspiração não tem hora nem lugar para acontecer. A tomada de inspiração pode acontecer em situações inesperadas ou pouco românticas para o ideário comum, mas acontece.

Já tive ideias criativas inspiradoras em pleno trânsito de São Paulo, dentro de banheiro público, no meio de uma reunião de negócios, dentro do metrô, do chuveiro etc. O convite da inspiração é fundir-se. Olhe para o papel em branco e escute-o. Funda-se com ele. Esta é uma brincadeira que te ajuda a relaxar diante da criatividade. Pois a criatividade está onde não tem tensão.

Nesse sentido, a criatividade é algo inerente a qualquer ação, não só àquelas ditas artísticas. É uma qualidade intrínseca disponível a cada ato, uma abordagem interna de observar a vida, não só sentir, mas na percepção da vida que há por trás da vida.

Uma pessoa criativa pode fazer tudo criativamente, caminhar criativamente, sentar criativamente, cair criativamente. Pode varrer o chão e o seu varrer ser uma pintura, uma dança. Um copo de leite derramado no chão pode não ser uma mera sujeira a ser removida, mas sim uma possibilidade de criação, um quadro, uma foto, um desenho em potencial. Atente-se.

Para a criatividade não há regra. Dorival Caymmi nunca estudou música e no entanto foi um inegável gênio e influenciador da música brasileira. Claro que técnicas e conhecimento são bem-vindos, podem ajudar a aprimorar a sua criatividade, mas não são garantia de que te tornarão mais criativo. São meras investidas.

A inspiração tem muito mais a ver com a espontaneidade do que com o conhecimento. Estar atento, em modo atenção, além da tensão do mundo, mas no mundo. Inspire-se!

Até a próxima!

 

JULIANO CARAVELA – Poeta, compositor e professor. Advogado pela PUC/SP. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. Sua obra é uma degustação de poemas, melodias e insights da experiência cotidiana autobiográfica, com influências poéticas que vão do abstrato ao concreto haicaísta e musicais que vão da bossa nova ao pop brasileiro. Empreendedor nas áreas de Arte/Educação/Cultura, ministra palestras, workshops e vivências para empresas, escolas e grupos. Curador de eventos de arte e poética da Casa das Rosas e gestor do Espaço Cultural AveVenus, em São Paulo.

Obras:
Livro: Samadhi – Vértebras em que versos correm (2016). Ed. Confraria do Vento.
Disco: Transeunte (2018) – Álbum poético musical. (spotify/deezer/itunes)
Clipes e vídeos: YOUTUBE/JULIANO CARAVELA.

Contato: [email protected]
@espacoavevenus / @juliano_caravela (Instagram)

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