Texto | RONALDO CAMPOS

Sou separado há 14 anos. Na época, meus filhos tinham 4 e 7 anos. Meu filho mais velho, desde pequeno, sempre foi muito apegado à mãe. Lembro de um dia em que ele tinha uns 3 anos: saímos para passear e, do nada, começou a chorar desesperadamente, gritando “Quero a minha mãe!” O soluço, a respiração ofegante, a insistência da frase — não tive alternativa senão levá-lo de volta para ela. Ele começou a falar muito cedo, antes de completar um ano, e talvez por isso aquelas palavras tenham soado ainda mais fortes, mais definitivas. Essa cena nunca me saiu da memória.

No finalzinho de 2024, ela foi diagnosticada com câncer em estágio IV no útero e no ovário. Foram muitas sessões de quimioterapia — um processo doloroso e sofrido de tentativa de cura, para ela e para todos que a acompanharam. Ela faleceu em abril deste ano, depois de quase um ano e meio de luta. São marcas que não se apagam em quem compartilha a luta pela vida.

Em junho, meus filhos vieram morar comigo. Foram quase 14 anos com rotinas separadas — eu me esforçando para estar presente, mas sabendo que não é o mesmo que dividir a mesma casa. Acordar cedo, levar para a escola, reencontrar à noite, jantar juntos, colocá-los para dormir: são esses gestos simples que aproximam pais e filhos, e boa parte deles eu perdi.

Sei também o que é perder alguém que amamos: quando meu irmão morreu num acidente de carro, larguei o trabalho e viajei sozinho por meses. Aprendi, com o tempo, que o luto não se cura — a gente aprende a conviver com ele, ora com saudade, ora com tristeza, ora com boas lembranças. Acho que é assim mesmo.

Meus filhos vão encontrar, cada um a seu tempo, o próprio jeito de conviver com a perda da mãe. Penso sempre numa frase do Mujica, ex-presidente do Uruguai: “Hay que aprender a llevar con las cicatrices y con las mochilas y seguir andando y mirando hacia adelante.”

Hoje vivemos juntos uma nova fase. Torço todos os dias para que encontrem o melhor caminho possível diante dessa perda. Talvez aquele grito, “quero a minha mãe”, nunca se cale de todo dentro deles. Mas precisam saber carregar suas cicatrizes e seguir adiante.


Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Kateryna Hliznitsova/Unsplash

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