Texto | RONALDO CAMPOS
Durante décadas, o crescimento econômico foi apresentado como a principal medida do progresso das sociedades. A lógica parecia simples: quanto maior a riqueza produzida por um país, maior seria o bem-estar de sua população. No entanto, uma parcela crescente da juventude nos países desenvolvidos já não acredita nessa promessa. O avanço de uma nova esquerda, especialmente entre integrantes da Geração Z, é menos uma revolução ideológica do que um sintoma de uma insatisfação profunda com a realidade econômica contemporânea.
Os números frequentemente mostram economias fortes, desemprego relativamente baixo e mercados financeiros em alta. Porém, para milhões de pessoas, a experiência cotidiana conta outra história. O aluguel consome parcelas cada vez maiores da renda, a compra da casa própria tornou-se um sonho distante e o custo de vida cresce mais rapidamente do que a sensação de prosperidade. Existe, portanto, uma desconexão entre os indicadores macroeconômicos e a percepção concreta da população.
Nesse contexto, ganham espaço propostas que prometem soluções imediatas: controle de aluguéis, transporte gratuito, creches universais e maior tributação sobre grandes fortunas. Muitas dessas ideias podem apresentar limitações práticas ou efeitos colaterais indesejados. Entretanto, o simples fato de encontrarem tanta receptividade revela algo importante. Quando uma sociedade deixa de oferecer perspectivas de mobilidade social e segurança econômica, cresce naturalmente a busca por alternativas que desafiem o modelo vigente.
Outro elemento decisivo é o avanço da inteligência artificial. Para muitos jovens, a tecnologia deixou de representar apenas inovação e passou a simbolizar insegurança. A possibilidade de automação de profissões, associada à concentração de riqueza nas mãos de poucos grupos empresariais, fortalece a percepção de que o futuro poderá beneficiar uma elite cada vez menor. Não surpreende, portanto, que surjam movimentos políticos prometendo proteger empregos e limitar os impactos dessa transformação tecnológica.
Talvez o maior equívoco seja interpretar esse fenômeno apenas como um retorno do socialismo. O que está em jogo não é necessariamente uma adesão a uma ideologia específica, mas uma cobrança por resultados concretos. As pessoas parecem menos interessadas em debates teóricos sobre capitalismo ou socialismo e mais preocupadas com uma pergunta simples: por que uma economia cada vez mais rica não consegue tornar a vida comum mais acessível?
O desafio dos próximos anos será responder a essa pergunta sem recorrer nem à nostalgia ideológica nem a soluções mágicas. Caso contrário, o descompasso entre crescimento econômico e qualidade de vida continuará alimentando movimentos que prosperam justamente onde a confiança nas instituições tradicionais começa a desaparecer. ■
Texto inspirado em artigo da The Economist.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Marija Zaric/Unsplash