Texto | CAMILA BARRETO

No Estreito da Coreia, ao sul da península, encontra-se a ilha vulcânica de Jeju. O cenário pode ser descrito por um ditado local que diz que há ali três coisas em abundância: pedras, vento e mulheres. Naquele pedaço de terra onde o relevo acidentado e o solo pouco fértil impossibilitam a agricultura tradicional, as Haenyeo — “해녀”, que significa “mulheres do mar” — compõem uma comunidade de mergulhadoras que desbravam as águas do oceano em busca do sustento que o solo não lhes pode oferecer. Muitas delas ainda mantêm uma vitalidade extraordinária que desafia até mesmo a passagem do tempo, e seguem mergulhando ativamente com 60, 70 e até mais de 80 anos de idade.
As primeiras referências documentadas sobre as Haenyeo datam de meados do século XVII, e a existência e resistência dessa tradição em si é um paradoxo cultural no mínimo fascinante, uma vez que, desde o século XIV, a sociedade coreana é rigidamente estruturada pelas raízes do Confucionismo, uma filosofia moral profundamente patriarcal e centrada na figura do homem. Apesar disso, a geografia e a história de Jeju e das Haenyeo forçaram uma brecha irresistível nesse sistema.

Devido a conflitos históricos e guerras, a população masculina da ilha foi drasticamente reduzida. Diante da fome iminente e da escassez de força de trabalho, as mulheres assumiram as tarefas pesadas voltadas à subsistência. A partir dessa virada, o que surgiu como um imperativo de sobrevivência acabou por reconfigurar a estrutura social da ilha, dando lugar a uma espécie de “matriarcado pragmático”. Em Jeju, as mulheres assumiram o protagonismo absoluto: elas dirigem caminhões, cuidam dos pomares, mergulham e sustentam suas famílias, enquanto em muitas casas os homens passaram a se ocupar dos cuidados domésticos e da criação dos filhos.
Na contramão de uma Coreia do Sul contemporânea que se tornou um dos epicentros globais da ultramodernidade e da tecnologia, as Haenyeo operam uma notável resistência cultural e ecológica. Elas rejeitam deliberadamente os equipamentos modernos de mergulho, como os tanques de oxigênio, e entram na água contando apenas com a capacidade dos próprios pulmões e do conhecimento do mar e da natureza que acumularam ao longo de suas vidas, vestindo suas tradicionais roupas de borracha pretas e carregando ferramentas que atravessam gerações.
Para desbravar o mar, elas utilizam o tewak (테왁), uma boia laranja arredondada que serve de apoio na superfície, à qual é acoplada a mangsari (망사리), a rede onde depositam a coleta. Nas mãos, levam ainda o bitchang (빗창), ferramenta de metal usada para arrancar os abalones das rochas submersas. Longe de ser uma desvantagem, é fundamental destacar que essa recusa tecnológica implica uma escolha consciente de preservação e cuidado. Afinal, além de o equipamento moderno deixar o movimento mais lento sob a água, as Haenyeo entendem que essa lógica de modernização levaria a uma extração descontrolada dos recursos marinhos. Dessa forma, elas atuam a partir da ética da suficiência: extrair do mar apenas o que o mar pode regenerar.
Essa existência comunitária é tecida por um pacto de cuidado mútuo, que ganha forma na organização de suas próprias cooperativas de pesca. Costuma-se dizer que “as Haenyeo são mais próximas que irmãs”, justamente porque a vida de uma depende diretamente do fôlego da outra. Embora o mergulho em si seja um ato solitário e silencioso, a pesca é coletiva, e levantar as redes pesadas na costa quando chegam à praia é uma tarefa que exige a força de todas, de modo que elas nunca entram no oceano sozinhas. Além disso, a comunidade se organiza por meio de uma hierarquia, na qual a capitã designada zela pelo bem-estar da comunidade.
Toda essa estrutura coletiva reflete a forma como elas enxergam o próprio território, já que, para as Haenyeo, o oceano não é apenas um recurso a ser explorado, mas também um pilar essencial de suas vidas, sendo ao mesmo tempo um patrimônio econômico e afetivo. É essa ligação profunda que lhes permite atingir profundidades de até 10 metros com um único sopro de ar, fruto de um condicionamento físico que desafia o próprio envelhecimento. Não à toa, muitas delas contam que o mar é também um espaço de cura e prazer, e que mesmo nos dias de folga sentem uma necessidade quase magnética de caminhar até a costa para olhar a água.

Foi justamente o valor imensurável dessa relação única que motivou o seu reconhecimento global em 2016, quando a Unesco inscreveu a cultura das Haenyeo como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, chancelando a autonomia dessas mulheres e a potência de sua tradição. Ainda que o cenário atual traga ameaças graves e urgentes, como a poluição das águas, o aquecimento global e o próprio envelhecimento do grupo, reduzi-las a uma lembrança nostálgica seria um erro. Elas são a prova viva de que a convivência com o meio ambiente não precisa ser sinônimo de desgaste ou submissão. Quando uma Haenyeo emerge e solta o sumbisori (숨비소리), aquele assobio agudo para recuperar o ar, o que ecoa pela costa de Jeju não é um lamento de despedida, mas a presença forte e imponente de uma tradição que aprendeu a conviver e contar com o planeta sem tentar dominá-lo. ■
Para saber mais:
• Para assistir: os documentários Haenyeo – A Força do Mar (2018), de Lygia Barbosa da Silva e Neto Borges, que registra a intimidade dessas mergulhadoras; e As Últimas Mulheres do Mar (2024), coproduzido por Malala Yousafzai, que acompanha a luta contemporânea do grupo para proteger o oceano.
• Para visitar: a exposição temporária Sopro do Mar: Jeju Haenyeo, Mulheres e Coletividade, no Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), em São Paulo, que traz fotografias, trajes e artefatos originais da Ilha de Jeju.
Camila Barreto é a vencedora do Projeto Escrita 2019 e, desde então, colabora como colunista da revista INSPIRE-C. É graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Fotos | Getty Images