Texto | RONALDO CAMPOS
Comprar é um ato cotidiano, mas cada vez mais pesquisadores e especialistas em comportamento humano discutem até que ponto ele pode se tornar um vício. A matéria da The Economist levanta justamente essa questão: será que estamos nos tornando dependentes das compras? A reflexão parte de um ponto central: adquirir um produto provoca um mecanismo de recompensa no cérebro, associado à dopamina. Essa sensação de prazer, no entanto, costuma ser passageira. Logo após o entusiasmo da compra, pode surgir arrependimento, culpa ou vazio — um ciclo emocional semelhante ao que se observa em outros comportamentos compulsivos.
Esse fenômeno se intensificou com a digitalização do consumo. Se antes comprar exigia sair de casa, enfrentar filas e carregar pacotes, hoje basta alguns cliques para concluir uma transação. A experiência tornou-se tão simples que praticamente não há barreiras para o impulso imediato. Plataformas oferecem promoções personalizadas, enviam notificações constantes e criam um ambiente que estimula a compra contínua. Redes sociais e influenciadores reforçam o desejo de estar sempre atualizado, exibindo novos produtos como símbolos de identidade e status.
Além do impacto econômico, há uma dimensão psicológica importante. Estudos indicam que o consumo compulsivo pode estar ligado a sintomas de ansiedade, depressão e estresse. A relação, contudo, não é linear: ainda não está claro se essas condições levam à compulsão por compras ou se, ao contrário, o hábito de comprar em excesso agrava o sofrimento emocional. De todo modo, quando o consumo deixa de ser um ato consciente e passa a causar prejuízos financeiros, conflitos familiares ou perda de bem-estar, torna-se um problema que merece atenção.
Culturalmente, vivemos em um contexto que favorece esse comportamento. O crédito fácil, a possibilidade de parcelamento e o apelo publicitário criam um terreno fértil para gastos acima do necessário. O desafio é que, apesar da relevância do tema, o chamado “vício em compras” ainda não é amplamente reconhecido como um transtorno oficial nos manuais de saúde mental, o que dificulta seu diagnóstico e tratamento. Ainda assim, especialistas já identificam sinais claros: dificuldade em controlar impulsos, gastos acima da renda, sensação de perda de controle e uso das compras como fuga de sentimentos negativos.
O debate sobre o consumismo compulsivo abre espaço para uma reflexão maior sobre responsabilidade coletiva. Se, por um lado, cabe ao indivíduo buscar equilíbrio e consciência em seus hábitos de consumo, por outro, empresas e plataformas digitais têm papel crucial ao criar sistemas que exploram a vulnerabilidade psicológica dos consumidores. Reconhecer esses mecanismos é o primeiro passo para lidar com eles. Afinal, comprar pode ser prazeroso, mas transformar o ato em dependência traz custos que vão muito além do bolso.■
Este texto foi inspirado na reportagem Are you addicted to shopping?, publicada pela revista The Economist em 18 de setembro de 2025.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Zachary Kadolph na Unsplash