Texto | ANDERSON BORGES COSTA

Uma forma de enfatizar a virilidade, a coragem, a força e o poder associados ao gênero masculino é traduzir tudo isso pela expressão “Homem com H”. E, de forma velada, acrescentar que o homem em questão é heterossexual. Se o filme bom é aquele que surpreende, que emociona e que carrega o espectador para dentro da tela, Homem com H, cinebiografia do artista Ney Matogrosso, é uma ótima dica.

A primeira surpresa é ver como um menino criado no interior do Brasil, em Mato Grosso, no seio de uma família conservadora, com pai autoritário e militar, consegue se impor às ordens e às surras paternas e, ao adolescer, decide sair de casa para viver a liberdade que não encontrou no lar.

A segunda surpresa é ver que o menino que saiu da casa de um autoritário pai militar foi buscar a liberdade no rigor da Aeronáutica, onde ele decidiu mostrar sua força etérea na Força Aérea.

A terceira surpresa é a transformação de um menino reprimido em um país repressor, filho de um pai militar, em um país governado por uma ditadura, na voz da liberdade. Ney é dono de uma voz rara e potente, capaz de alcançar agudos pouco comuns para cantores masculinos.

A quarta surpresa é Jesuíta Barbosa, o ator que faz o papel de Ney em Homem com H. Ele, que em outros trabalhos teve desempenho fraco, aqui se supera e adquire incrível semelhança física e os mesmos trejeitos de Ney Matogrosso. Só não é capaz de cantar como Ney, já que ninguém consegue cantar como Ney. No filme, o próprio Ney dubla Jesuíta, sem que isso diminua a virtude de sua interpretação.

Homem com H é uma caixinha pouco ortodoxa de surpresas. A sexualidade de Ney é um canto de liberdade, uma porta que destranca armários. Uma bela surpresa.
Segure-se no sofá, pois cinema também é movimento.
 
Homem com H  (Brasil, 2025)
Direção: Esmir Filho
Elenco: Jesuíta Barbosa, Hermila Guedes e Bruno Montaleone


Anderson Borges Costa
Formado e pós-graduado em Letras (Português/Inglês/Alemão) pela Universidade de São Paulo. Professor de Português e Literatura na Escola Internacional St. Nicholas. Escritor, autor dos romances Professoras, Rua Direita e Avenida Paulista, 22, do livro de contos O livro que não escrevi e de peças teatrais.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto: Reprodução | Homem com H conta a vida de Ney Matogrosso

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