Por Martin M. Perl
Centro do Acelerador Linear de Stanford | Menlo Park | CA | EUA
Tradução Ronald Cintra Shellard
Diagramação e adaptação Ronaldo Campos
A imagem popular de um cientista e de como se faz ciência está muito longe da realidade e isto é uma das razões pelas quais tantos jovens se afastam das carreiras científicas. Por isto eu quero contar o que aprendi ao longo de cinquenta anos fazendo experimentos em física. Vou resumir em 14 máximas o que aprendi e são estas máximas que tornam fazer ciência experimental prazerosa e excitante. Usarei exemplos da minha vida.
Você deve levar em conta sua personalidade e temperamento na escolha da sua ciência e seus interesses naquele campo.
Tenho uma visão mecânica do universo. Sou competente em matemática, mas não sou excelente em matemática, portanto tornei-me um experimental. Eu especulo sobre experimentos que possam ser interessantes, mas não faço trabalho em teorias físicas. Eu gosto de trabalhar com o equipamento porque sou muito habilidoso em termos mecânicos. Mas não tente enquadrar-se em nenhuma imagem particular do que cientistas deveriam ser. Você não precisa ser um gênio matemático ou um mecânico habilidoso. Você tem apenas que querer encontrar novas coisas sobre a natureza e você deve ter a força para continuar trabalhando num experimento quando ninguém sabe a resposta. O grande prazer ocorre quando você é o primeiro a saber a resposta.
O melhor é usar suas próprias ideias para experimentos.
Nem sempre é possível usar suas próprias ideias porque você pode ser parte de um grupo científico maior, com objetivos bem definidos, mas é sempre mais divertido trabalhar nas suas próprias ideias.
Você não precisa ser um pensador rápido, ou ser rápido com as palavras. De fato é até melhor evitar este tipo de gente.
Quando você começa a ter uma nova ideia ela pode estar mal formulada, ou mesmo errada. Evite os boquirrotos que têm prazer em mostrar que sua ideia está errada. Isto porque trabalhando numa ideia que possa estar um tanto errada, frequentemente você pode chegar a boas ideias. Isto toma tempo e você precisa de colegas que sejam solidários e que o apoiem, não críticos rápidos com a palavra.
Você não precisa saber tudo. Você pode aprender sobre um assunto ou uma tecnologia quando necessitar.
A ciência move-se muito rápido hoje em dia e, se você tenta começar em uma nova área, você pode acabar pensando que terá que gastar todo início do seu tempo estudando o assunto antes de pular nele. O melhor é entrar rápido de cabeça e aí aprender o que necessita de colegas ou livros ou cursos ou por experiência.
Para cada boa ideia, espere ter pelo menos dez ou vinte ideias ruins.
Mas saiba que a maioria de suas ideias não vai funcionar, mas quando você tem uma boa ideia que funciona, aí é uma maravilha.
Com frequência é impossível predizer o futuro de uma tecnologia usada em engenharia ou ciência.
Eu fui um engenheiro químico antes de tornar-me um físico e no final da década de 1940 eu trabalhava para a companhia General Electric. Eu trabalhava num projeto de P&D para fazer tubos de válvulas eletrônicas muito pequenas de modo que os rádios pudessem ser menores e consumir menos potência. Neste meio tempo o transistor foi inventado nos Laboratórios Bell.
Você tem que estar interessado, ou mesmo encantado, por algumas das tecnologias ou matemática que você usa. Aí os dias ruins não são tão ruins.
Você sempre terá dias ruins quando faz ciência experimental, quando nada funciona ou você descobre que os desenhos ou projetos mudaram. É crucial que você esteja encantado com algumas partes do experimento de modo a sobreviver aos tempos ruins.
Outra vantagem de estar encantado pela tecnologia ou matemática usada é que será mais provável pensar em melhorias ou variações.
Esta é óbvia.
Você pode não gostar ou mesmo detestar algumas das tecnologias ou matemática usadas num grande experimento ou projetos de engenharia, e você pode ficar feliz em deixar estas áreas para seus colegas. Mas não se surpreenda se você tiver que abordar uma destas áreas.
Eu comecei minha carreira como engenheiro químico e há muitas áreas da química de que eu não gosto. Mas o trabalho presente de busca de partículas com cargas elétricas fracionárias em material de origem meteorítico usa muita química coloidal. Tive que aprendê-la.
Você pode ser um fã da tecnologia ou matemática que você usa, mas não fique muito apaixonado. Pode haver um jeito melhor.
Esta é óbvia.
Você deve aprender a arte da obsessão em ciência e tecnologia.
Quando você está trabalhando em um experimento é importante estar obcecado por ele. Quando você acorda no meio da noite você deveria estar pensando no experimento. Mas em todos os experimentos chega um tempo em que você não pode melhorá-lo substancialmente ou quando alguém concebeu um experimento mais frutífero na mesma área. Então é tempo de terminar o experimento presente e seguir em frente. Esta é a arte da obsessão em ciência.
Em muitas áreas da ciência está ficando cada vez mais difícil ter tempo para fazer tanto o trabalho experimental quanto a teoria original. Em algumas
áreas como física das partículas e astrofísica já é quase impossível.
Em várias áreas da ciência o desenho e construção do aparato experimental moderno tornou-se um trabalho de dedicação integral, assim como fazer trabalho teórico original. É triste, mas infelizmente não há tempo suficiente no dia e na noite para fazer ambos.
Teoria deveria ser uma boa companhia para o cientista, inventor ou engenheiro, às vezes liderando, às vezes seguindo. O cientista ou engenheiro não deve permitir que a teoria imponha a moda ou determine o que é importante.
Teoria, mesmo teoria muito especulativa veio a dominar o pensamento e a apresentação da ciência dentro e fora da comunidade científica. Nos dias atuais, os cientistas fazem experimentos porque uma teoria, com frequência uma teoria muito especulativa, sugere o experimento. Se você está fazendo o experimento de qualquer modo, você não gastará muito tempo testando a especulação, mas você ficará mais feliz e descobrirá mais sobre a natureza se você faz os experimentos nos quais acredita. No final, a validade da ciência depende dos resultados experimentais e das medidas obtidas.
Este artigo é de domínio público e tem por objetivo divulgar a ciência. Faz parte da coleção Algumas razões para ser um cientista que procura desmistificar e estimular o estudo da ciência, principalmente entre os jovens.