Texto | RONALDO CAMPOS
A cumbia argentina, frequentemente chamada de “a música tropical do fim do mundo”, oferece um exemplo contundente de como manifestações culturais nascem, se misturam e se consolidam a partir de fluxos migratórios. Longe de ser apenas um ritmo festivo, ela se tornou um símbolo de identidade nacional e um instrumento de reorganização social nas periferias urbanas.
Em primeiro lugar, a formação histórica da cumbia no país demonstra que a cultura não é estática, mas resultado de trocas e deslocamentos. A chegada de estudantes latino-americanos à Universidade de Buenos Aires, nos anos 1950, criou o ambiente ideal para a fusão musical que deu origem a grupos pioneiros, como Los Wawancó. Esses músicos — costarriquenhos, colombianos, peruanos e chilenos — introduziram ritmos tropicais que, reinterpretados localmente, moldaram a estética inicial da cumbia argentina. Assim, a gênese do gênero revela que a identidade cultural se fortalece não pelo isolamento, mas pela abertura.
Outro ponto central é o papel social da cumbia durante a redemocratização. Os bailantas, espaços populares de dança, tornaram-se territórios de afirmação para trabalhadores e migrantes que, historicamente, ocuparam posições marginais no tecido urbano. Nessas casas noturnas periféricas, a cumbia se transformou em narrativa coletiva — um lugar onde a experiência da dificuldade se convertia em festa, pertencimento e voz. Argumentar que a cumbia é apenas entretenimento reduz sua potência transformadora.
Por fim, a diversidade contemporânea do gênero reforça sua relevância cultural. A coexistência entre tradições dos anos 1980, a força da cumbia villera e propostas dissidentes voltadas ao público jovem e queer mostra que a cumbia acompanha as mudanças sociais do país. Sua capacidade de se reinventar indica que ela não pertence a um grupo específico, mas a todos aqueles que reconhecem nela uma forma legítima de expressão.
Dessa forma, a cumbia argentina não é um produto exótico nem um estilo periférico: é uma síntese cultural que espelha a história do país e sua pluralidade. Compreendê-la implica reconhecer o valor social das culturas que emergem das margens e que, justamente por isso, revelam o que um povo tem de mais vivo, múltiplo e resistente. ■
Fonte | NPR, “Cumbia in Argentina”, 15 de outubro de 2025. Disponível em: https://www.npr.org/sections/the-picture-show/2025/10/15/nx-s1-5549182/cumbia-in-argentina
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa | RONALDO CAMPOS/Canva