Texto | ANDERSON BORGES COSTA

Você já ouviu falar em realismo mágico? Talvez já tenha lido ou assistido a histórias que misturam personagens e situações sobrenaturais ou fantásticas com a realidade cotidiana. Pois é essa mistura, que tem muito a cara do Brasil, que tempera o enredo do bom romance Oração para desaparecer, da jovem escritora cearense Socorro Acioli.

Logo na primeira linha, tomamos um susto ao ler: “Acordei com os olhos grudados de lama, o nariz entupido de terra e a boca cheia de areia estralando nos dentes”. Pois é isto mesmo: a protagonista da história havia sido enterrada viva. E assustada ao se ver ainda viva, entende que renasceu para a vida, sem ter a menor ideia de quem era, de como se chamava ou do motivo de sua morte.

Oração para desaparecer é a tentativa de desvendar o mistério desta personagem, que surge na pequena cidade portuguesa de Almofala, um lugar completamente desconhecido para ela. As únicas pistas que carrega são o seu sotaque nordestino do Brasil e um colar de búzios. Aos poucos, ela vai tirando a terra do corpo e entendendo que as pessoas que a recebem estavam aguardando a sua chegada no pequeno vilarejo em Portugal. Por ter aparecido sem uma história de passado, ela passa a ser chamada de Cida.

A experiência de ler Oração para desaparecer é parecida com o ato de montar um quebra-cabeças, no qual recebemos todas as peças da história desmontadas e separadas. Nossa missão é resgatar a vida de Cida, cujo nome não é Cida, entender seu passado e, depois de pronto, olhar para as peças do quebra-cabeças montadas e tomar um susto ao ver que Oração para desaparecer é a nossa própria história. Socorro Acioli nos oferece um alfabeto que pode ser lido com três letras, S.O.S., como uma fogueira acesa no centro de uma ilha deserta, como o pedido de um socorro, escrito por uma Socorro, para reparar a história. Boas leituras!

Oração para desaparecer, de Socorro Acioli
Editora: Companhia das Letras


Anderson Borges Costa
Formado e pós-graduado em Letras (Português/Inglês/Alemão) pela Universidade de São Paulo. Professor de Português e Literatura na Escola Internacional St. Nicholas. Escritor, autor dos romances Professoras, Rua Direita e Avenida Paulista, 22, do livro de contos O livro que não escrevi e de peças teatrais.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto divulgação | socorroacioli.com.br

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