Texto | RONALDO CAMPOS
A linha 8-Diamante do trem que vai da estação Júlio Prestes, centro de São Paulo, à estação Amador Bueno, no município de Itapevi, estava surpreendentemente calma naquele domingo ensolarado e quente de janeiro.
O trem circulava com muitos assentos vazios e próximo a mim havia uma mãe com duas filhas. Calculo que a mais velha tinha entre 7 e 8 anos de idade, e a caçula, por volta de 4. A mãe estava compenetrada no celular, a caçula levantava e sentava numa brincadeira de se equilibrar sem se segurar nas barras de apoio, e a mais velha estava esparramada em três bancos, lendo o livro Diário de um Banana, emprestado de uma das bibliotecas públicas da cidade de São Paulo.
Tenho por hábito observar se há leitores nos vagões dos trens e metrôs. Várias vezes cheguei a contar quantas pessoas liam livros impressos ou e-books. Os números não são grandes, considerando que um vagão tem capacidade para aproximadamente 300 pessoas. Certa vez, em um vagão lotado, contei sete livros impressos e três e-books.
No ano passado, o sistema municipal de bibliotecas públicas de São Paulo registrou um número baixo de leitores, considerando que a rede é ampla e bem distribuída — são 54 bibliotecas de bairro, 15 pontos de leitura, 13 bosques de leitura e 12 ônibus biblioteca que percorrem semanalmente diferentes roteiros. Com exceção de Parelheiros, extremo sul da cidade, que tem apenas um ônibus biblioteca, é relativamente fácil o acesso à leitura gratuita e de qualidade. No entanto, foram 500 mil empréstimos para uma população de 11,5 milhões de habitantes (IBGE, 2022), ou seja, uma relação de apenas 4,35%.
Apesar do número baixo de leitores, estímulos não faltam para se desenvolver o hábito de leitura. Além das bibliotecas públicas, estudos comprovam que ler faz bem para o cérebro, traz benefícios para a saúde mental, auxilia no combate a (ou atrasa o desenvolvimento de) doenças como demência e Alzheimer, melhora as habilidades de escrita, de criatividade e de senso crítico. Enfim, é uma atividade com múltiplas funções benéficas, além de ser um ótimo entretenimento.
Mas, então, por que, mesmo assim, lê-se tão pouco? Especialistas apontam alguns dos principais motivos: a falta de estímulo, de estrutura adequada e a concorrência com outros tipos de mídia. Contudo, esses e outros “problemas” podem ser facilmente superados com o próprio hábito de leitura. Em sua quase totalidade, as escolas e as famílias estimulam a leitura. Quanto à falta de estrutura adequada, além dos diversos pontos físicos das bibliotecas, há mais de 5 milhões de e-books, jornais e revistas no site das bibliotecas públicas de São Paulo.
O mais difícil é vencer a concorrência da internet, do WhatsApp, do YouTube, da Netflix e das demais mídias eletrônicas. Isso porque a leitura demanda um empenho, uma concentração, uma dedicação que muitas vezes as pessoas ainda não adquiriram por conta da tendência natural de se optar por aquilo que exige menos esforço. Como muito bem disse o Marquês de Maricá: “Ler sem refletir é comer sem digerir”.
O sentimento que ficou do encontro com a menina do Diário de um Banana foi de alegria e de esperança. Ao vê-la completamente imersa e concentrada — ora franzia o cenho, ora esboçava um sorriso —, acreditei que nela se desenvolvia o hábito da leitura.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto de Johnny McClung/Unsplash