Texto | ARTHUR MEUCCI e FLÁVIO TONNETTI

Não existe amos sem morte. Como todo desejo que perdura, é preciso, para que perdure, que o objeto de apego chegue ao fim. Que aquilo que construímos se desfaça. Que a pessoa de quem gostamos passa partir.

Se o desenho é uma falta, dizia Sócrates, então é preciso que não haja uma posse definitiva para continuar desejando. Não desejamos mais os doces já comidos. A posse absoluta do que queremos é o suicídio do desejo. O bom será sempre o próximo doce, aquele que ainda não degustamos.

Mas o mesmo não acontece com relacionamentos: após possuir o objeto amado não matamos nosso desejo. Por que não? Porque pessoas não são chocolates. Não são fáceis de adquirir, não são iguais a todo o momento, não estão sempre a nossa disposição, nem têm data de validade.

Pelo bem do desejo é preciso dar espaço ao outro. A presença persistente de alguém é terrificante. Como o bom vizinho que não quer ir embora, o chefe que não larga do pé, a ex-namorada que lhe acompanhava 24 horas. É preciso matar o outro, simbolicamente, para continuar amando. Sair para o trabalho após uma bela noite de núpcias, deixá-la para sair com os amigos quando a sogra chega, afastar-se de casa após uma discussão.

Amar pressupõe temer o fim. É ter cuidado e preocupação por aquele filho que está solto no mundo, pelo pai com problemas de saúde, pela amada que pode lhe deixar. É a morte, real ou simbólica, que diferencia o simples desejo do amor profundo.


Miniensaios de Filosofia, volume: Amor, Existência & Morte, cap. XXV, editora Vozes, 2013.

Arthur Meucci
Bacharel, Licenciado Pleno e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Extensão em Filosofia do Cinema pelo COGEAE/PUC. Possuí formação em Psicanálise; Professor Adjunto da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Flávio Tonnetti
Bacharel e mestre em Filosofia pela USP, doutor em Educação pela mesma instituição, com tese sobre educação e tecnologia.
Professor da Universidade Federal de Viçosa.
contato: [email protected]

Diagramação | RONALDO CAMPOS

Imagem capa | JENNIFER LATUPERISA ANDERSON/Unsplash

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