Texto | RONALDO CAMPOS

A crise do mercado imobiliário chinês, iniciada em 2021, caminha para se tornar um dos episódios mais longos e sensíveis da história econômica recente do país. Mesmo com esforços crescentes do governo para conter o pessimismo — incluindo o fechamento de milhares de contas em redes sociais e a restrição à divulgação de dados privados — os sinais de deterioração seguem difíceis de ocultar.

Os números disponíveis são contundentes. As vendas de imóveis novos caíram cerca de 50% em relação ao pico de 2021. A construção residencial encolheu quase 75%, enquanto o investimento no setor recuou mais de um terço. Mais alarmante ainda é o comportamento dos preços: estimativas indicam que 85% da valorização acumulada ao longo da década anterior foi perdida, superando em intensidade até mesmo o colapso do mercado imobiliário americano em 2007.

A preocupação se estende ao sistema financeiro. Bancos, seguradoras e gestores de ativos detêm grande parte de suas garantias e investimentos atrelados a imóveis, o que amplia o risco sistêmico à medida que os preços continuam caindo. A leitura oficial, baseada em um índice que cobre apenas 70 grandes cidades, pode subestimar o problema, ao excluir centros menores — justamente onde a queda tem sido mais severa.

Na ausência de dados confiáveis, análises independentes apontam um cenário prolongado. Consultorias estimam que os preços de imóveis usados ainda podem cair cerca de 40% e que a crise pode se estender até 2030. Entre as causas estão a interferência de governos locais, que tentam limitar descontos para evitar tensões sociais, e a ausência de um imposto imobiliário efetivo, o que desestimula a venda de milhões de propriedades mantidas apenas como investimento.

Com menos imóveis novos no mercado e um grande estoque de unidades encalhadas, o ajuste tende a ser lento e doloroso. Ao que tudo indica, nem a censura digital será suficiente para silenciar um problema estrutural dessa magnitude.


Fonte | The Economist — Finance & Economics, “Slapped down: China’s property woes could last until 2030”.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Michael Rivera/Unsplash

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