Texto | RONALDO CAMPOS

Com certeza o divino inspira. Um milhão de visitantes, porém, é resultado do trabalho do MASP para se modernizar e dialogar com o seu tempo.

Não poderia deixar de falar novamente do MASP. O número de um milhão de visitantes em 2025 não é apenas expressivo; é revelador. Ele confirma algo que há muito se percebe, mas raramente se assume com clareza: quando se cria um espaço adequado para o encontro com a arte, as pessoas vão. Não por obrigação, não por modismo, mas por desejo.

Há no Brasil uma demanda reprimida enorme por contato com a arte. Durante anos, sustentou-se a ideia de que museus seriam espaços elitizados, distantes ou pouco atraentes para o grande público. Os dados do MASP desmontam esse argumento. O público existe, a curiosidade existe, a vontade de fruir arte também. O que muitas vezes faltou foi a oferta na forma certa.

É evidente que a inauguração do novo prédio contribuiu para atrair visitantes. A curiosidade arquitetônica funciona como convite — e isso não diminui o fenômeno; ao contrário, o explica em parte. Mesmo que parte do público tenha ido inicialmente para conhecer o espaço, o percurso inevitavelmente passa pelas obras. O visitante entra pela arquitetura, mas sai atravessado pela arte. E essa experiência, ainda que breve, costuma despertar novas perguntas, novas buscas, novos retornos.

O sucesso do MASP em 2025 não deve ser lido apenas como um feito institucional, mas como um sinal cultural. Talvez as pessoas estejam cansadas do excesso de imagens que passam rápido demais pelas telas de celulares, computadores e televisores. Há um esgotamento do fluxo contínuo, da imagem que não se fixa, que não pede silêncio nem tempo.

Diante de um quadro ou de uma escultura, a experiência é outra. A imagem permanece. O olhar desacelera. Os eletrônicos ficam de lado e a imaginação ganha espaço para completar aquilo que os olhos absorvem. Nesse sentido, o museu oferece algo raro hoje: um intervalo. Um alívio. E, ao que tudo indica, um alívio muito procurado.


Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Exhibit in the Museu de Arte de São Paulo – São Paulo, Brazil. This work is old enough so that it is in the public domain.

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