Texto | RONALDO CAMPOS

A decisão da Dinamarca de encerrar a coleta e a entrega de cartas, após quatro séculos de tradição, é mais do que um gesto simbólico: é um aviso claro de que o mundo analógico está perdendo terreno mesmo onde ainda tentamos preservá-lo. O país, um dos mais digitalizados do planeta, apenas levou às últimas consequências uma tendência inevitável. Quando o volume de correspondências cai 90% em 25 anos e o preço de um selo dispara, insistir em manter o serviço universal se torna um erro econômico — ou uma teimosia romântica.

Mas reduzir o debate a uma simples questão de demanda seria míope. O fim das cartas revela uma mudança cultural profunda: trocamos o tempo lento da escrita pelo imediatismo das notificações. Durante a pandemia, esse movimento se acelerou; conectados por telas, confirmamos que conseguimos viver — e até celebrar — de modo inteiramente digital. Ao mesmo tempo, impulsionamos o comércio eletrônico a níveis inéditos, transformando encomendas no novo coração do sistema postal global.

Ainda assim, a Dinamarca não representa o mundo. Em países como Índia e Brasil, onde a ascensão de novas classes médias ampliou o uso de correspondências, as cartas seguem relevantes. E experiências bem-sucedidas, como a transformação da Deutsche Post em gigante logística ou a diversificação da Poste Italiane, mostram que o serviço postal não está condenado — está apenas mudando de natureza.

O ponto crucial é outro: o que perdemos quando os correios decidem que já não vale mais a pena enviar cartas? Mesmo no Brasil, onde o envio resiste aqui e ali, a mensagem é clara: em breve, até o Papai Noel só receberá pedidos por e-mail. E é importante dizer: não se trata de defender a ineficiência — Os Correios brasileiros carregam um rombo histórico que exige reformas profundas. Mas qualquer modelo de futuro precisa reconhecer que serviços públicos não atendem apenas a demandas econômicas; atendem também a necessidades humanas — especialmente nesta época do ano, quando crianças ainda mandam cartas ou desenhos ao Papai Noel, e seria estranho dizer que ele não recebe mais pedidos em papel, apenas e-mail ou recados pelas redes sociais. Para muitos, especialmente idosos e comunidades isoladas, o correio representa vínculo, rotina, cidadania. Uma lógica exclusivamente financeira corre o risco de amputar exatamente o que sustenta a vida em sociedade.

A Dinamarca escolheu o futuro — e outros países podem seguir o mesmo caminho na próxima década. Mas é preciso ir além da equação entre custos e eficiência. Como sociedade, precisamos construir modelos que conciliem sustentabilidade econômica com aquilo que ainda faz sentido preservar. Afinal, há serviços que, mesmo em declínio, carregam um valor humano e simbólico que a digitalização não substitui totalmente, especialmente quando falamos do imaginário infantil. Ajustar contas é necessário — ajustar nossa compreensão da natureza humana também. Feliz Natal!


Fonte | The Economist, “Denmark gets ready to cancel Christmas cards”, 27 de novembro de 2025.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Wallpapers

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