Texto | RONALDO CAMPOS
Desde o momento em que nascemos até o inevitável fim, cruzamos com uma infinidade de pessoas. Algumas permanecem — raras e decisivas —, mas a maioria se dissolve ao longo do caminho. Talvez a vida não seja apenas o que construímos com quem fica, mas também aquilo que, inevitavelmente, perdemos. A despedida, nesse sentido, não é exceção: é regra silenciosa.
Nem sempre percebemos quando ela acontece. Há relações que não terminam — apenas se afastam. O que antes era presença constante se torna ausência espaçada, depois lembrança vaga, até desaparecer quase por completo. Não houve ruptura, nem conflito, nem palavra final. Apenas o tempo, operando com discrição. E, quando nos damos conta, já não sabemos ao certo quando foi que aquela pessoa deixou de fazer parte da nossa vida.
Outras despedidas, porém, nos encaram de frente. São as que marcam o fim de um ciclo: um trabalho que se encerra, um curso que termina, uma fase que se esgota. Nelas, há rituais — abraços, promessas, votos de sucesso. Mas, mesmo nessas ocasiões em que tudo parece mais consciente e organizado, algo se repete: a maioria dessas presenças também não resiste ao tempo. O que era convivência diária torna-se memória ocasional.
Se nas despedidas silenciosas há apagamento, e nas despedidas formais há tentativa de preservação, nas despedidas amorosas há ruptura. São, talvez, as mais intensas porque carregam expectativa de permanência. Relações que pareciam destinadas a durar se desfazem de maneiras imprevistas — ora abruptas, ora negociadas, por vezes sem explicação suficiente. Nesses casos, despedir-se não é apenas aceitar um fim, mas reorganizar o próprio sentido do que foi vivido.
Nem toda despedida, porém, pesa. Algumas, discretamente, nos aliviam. São vínculos que cruzaram nosso caminho, mas nunca encontraram real sintonia com quem somos. Quando se encerram, o que surge não é falta, mas leveza. E, sem culpa, muitos desses rostos se apagam com rapidez — como se nunca tivessem ocupado um espaço verdadeiro.
Entre o esquecimento, a tentativa de preservar, a ruptura e o alívio, a despedida revela sua natureza ambígua. Pode ferir ou libertar, esvaziar ou reorganizar. E, talvez por isso, não exista uma forma única de enfrentá-la. Cada um aprende — ou tenta aprender — a lidar com aquilo que se perde. A vida se constrói nesse fluxo irregular de encontros e desencontros, de permanências raras e ausências inevitáveis. Nesse sentido, ecoa a lucidez de José Mujica ao afirmar: Tenemos que seguir adelante con nuestras cicatrices.
Recordo-me de uma transmissão de basquete em que um time, visivelmente apático, parecia resignado à derrota. Até que o técnico colocou em quadra um jogador novato, que ainda não havia participado da partida. Não se sabe ao certo o que ele sentia naquele momento, mas o narrador descreveu sua atitude de forma marcante: como alguém que arrancou o retrovisor e decidiu acelerar olhando apenas para frente.
Talvez seja isso que, no fim, as despedidas nos ensinem. Não ignorar o passado — porque ele nos constitui —, mas também não permanecer refém dele. Seguir adiante, mesmo com marcas, mesmo com dúvidas. Porque viver, em última instância, é a maior de todas as despedidas. ■
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Ali Kazal/Unsplash