Texto | RONALDO CAMPOS
A indústria alimentícia parece ter encontrado uma nova fronteira para estimular o consumo: a textura. Se os sabores já não surpreendem, a combinação de ingredientes crocantes, cremosos e mastigáveis transforma um simples lanche em uma experiência sensorial. O que poderia ser apenas uma refeição rápida passa a ser vendido como entretenimento.
As redes sociais contribuem para essa transformação. Vídeos que exploram os sons e as sensações provocadas pelos alimentos despertam curiosidade e influenciam hábitos de consumo. Para as empresas, trata-se de uma oportunidade de diferenciação em um mercado saturado. Para os consumidores, porém, fica a pergunta: estamos descobrindo novas formas de prazer ou apenas nos tornando mais suscetíveis a estímulos cuidadosamente planejados para vender?
O problema não está na criatividade da indústria, mas na lógica que transforma qualquer experiência em oportunidade comercial. Quando até o ato de comer precisa oferecer uma sensação extraordinária, corremos o risco de perder o interesse pelo que é simples e cotidiano. A novidade deixa de ser um prazer eventual e passa a ser uma exigência permanente.
Inovar é legítimo, mas convém lembrar que nem toda experiência precisa ser intensificada para ter valor. Talvez a verdadeira liberdade de consumo esteja justamente em poder apreciar algo sem precisar ser constantemente surpreendido por ele. ■
Nota: Texto inspirado no artigo “Why your snacks are chunkier and chewier than before”, publicado na seção Business da revista The Economist.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | THE ORGANIC CRAVE Ⓡ/Unsplash