Texto | CAMILA BARRETO
“Traduzir é trair.” Essa é uma das frases mais emblemáticas dos estudos tradutológicos. Embora polêmica, ela expressa um dilema central da prática tradutória: levar o leitor para o contexto do autor ou trazer o autor para o contexto do leitor? Segundo o filósofo alemão Friedrich Schleiermacher, tal é a escolha do traidor, ou melhor, do tradutor. Certamente, há aqueles que condenam completamente a ideia de traição, enquanto outros admitem certo grau de infidelidade como possibilidade criativa.
A história da tradução sempre foi repleta de muitas nuances. Estudos apontam que as primeiras formas de tradução eram do tipo interpretação, ou seja, simultâneas transmitidas oralmente. A prática é fruto da necessidade, uma vez que sempre existiu contato entre povos de línguas distintas, fosse por meio de trocas comerciais, de viagens ou mesmo de relações diplomáticas. Ou seja, a tradução sempre esteve intimamente ligada à necessidade de comunicação intercultural.
Hoje em dia, pode-se dizer que ela está sempre presente em nosso cotidiano por meio de suas diversas modalidades. Na legenda das séries, na dublagem do filme, nos livros de literatura estrangeira traduzidos que consumimos, nas traduções automáticas de sites e redes sociais, e até mesmo por modalidades já incorporadas à língua, como o famoso “Méqui” da rede McDonald’s, um exemplo de decalque, isto é, uma forma de tradução que adapta a escrita de acordo com o som na língua de chegada. Isso sem contar as traduções intersemióticas, que envolvem diferentes linguagens, como um livro adaptado para o audiovisual, ou mesmo a tradução interlingual, que ocorre dentro da mesma língua.
Dado esse breve panorama, quando se fala em traição, nesse contexto, os holofotes estão sobre as escolhas que o tradutor precisa fazer. Sim, porque quem traduz, em muitos casos, está condenado a escolher. Afinal, o processo não consiste na simples transposição palavra por palavra de um idioma para outro, pois as línguas de modo algum se correspondem termo a termo e, portanto, nenhuma tradução pode ser absolutamente fiel, nem mesmo quando as línguas são próximas entre si. Desse modo, é impossível exaurir o original e traduzi-lo integralmente.
Salvo os textos especializados, que por sua natureza técnica são mais específicos e, portanto, restritivos em termos de conteúdo, linguagem e estilo, muitos textos oferecem um campo vasto de referências e possibilidades interpretativas e estilísticas, especialmente textos literários. É justamente aí que a tradução se aproxima da criação, a partir da exigência de decisões estéticas, culturais e contextuais específicas do projeto tradutológico.
Por outro lado, essa abertura criativa pode abrir margem para um adultério escancarado. Um exemplo histórico é uma prática comum na França no século XVII, definida pelo filólogo Gilles Ménage como Les belles infidèles (As belas infiéis). Nada mais eram que traduções que adaptavam obras estrangeiras ao gosto e ao estilo francês da época, eliminando traços de alteridade do texto original. Embora o intuito fosse tornar a obra mais agradável ao leitor francês, o caráter profundamente etnocêntrico da prática acabava por empobrecer a língua e fechar a cultura em si mesma.
Essa domesticação, no entanto, funciona de forma bastante eficaz em determinados contextos atualmente. Filmes e desenhos voltados ao público infantil, por exemplo, costumam exigir esse tipo de adaptação para que o humor funcione na língua de chegada. Muitas vezes, as piadas dependem de referências culturais e linguísticas específicas do idioma original, de modo que perderiam completamente o seu sentido e o seu efeito cômico se fossem traduzidas literal e fielmente. Assim, a escolha passa por encontrar algo no idioma de chegada que cause o efeito cômico tendo em vista as referências culturais próprias daquela língua.
Diante de tudo isso, e mediante o cenário tecnológico atual, será que os tradutores automáticos, que já são amplamente utilizados, são capazes de lidar com escolhas tão complexas?
A inteligência artificial é, de fato, uma ferramenta significativa para um primeiro acesso a conteúdos de outras línguas. No entanto, ela dificilmente será capaz de substituir o trabalho humano nesse processo de escolha. Isso porque o processo tradutológico envolve, como mencionado anteriormente, uma ação que é também essencialmente criativa, e que atravessa a subjetividade de quem traduz.
Sem sombra de dúvidas, o ChatGPT poderá traduzir um poema de Edgar Allan Poe utilizando todos os seus dados algorítmicos. Porém, essa tradução jamais será capaz de mergulhar na literalidade da obra e do autor, de se mover como um pêndulo entre o original e o que se pretende traduzir, já que o caminho para isso é o da subjetividade.
Por fim, é muito improvável que as inteligências artificiais estejam de fato aptas a escolhas de infidelidade, proximidade ou opções criativas, como aquelas comentadas no início da discussão. Pois se traduzir é trair, estou certa de que ninguém o fará melhor que um traidor nato como o ser humano, cheio de complexidades e dilemas existenciais, próprios da subjetividade, que faltam às automatizações poliglotas.■
Camila Barreto é a vencedora do Projeto Escrita 2019 e, desde então, colabora como colunista da revista INSPIRE-C. Atualmente, cursa Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
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