Texto | CAMILA BARRETO

Se você é uma pessoa comum vivendo em pleno século XXI, é possível assumir que passa uma quantidade considerável do seu tempo em frente a telas. Seja no computador durante o trabalho, nas redes sociais pelo celular ou em plataformas de streaming na TV, hoje em dia é praticamente impossível não estar conectado de alguma forma.

No Brasil, esse cenário de hiperconectividade é ainda mais sério. Segundo uma pesquisa realizada pela Consumer Pulse, publicada pela CNN Brasil em junho de 2025, os brasileiros passam, em média, mais de nove horas por dia na internet, sendo mais de três horas desse tempo dedicadas somente ao uso das redes sociais. Isso faz com que o Brasil desponte acima da média global quando o assunto é tempo de conexão.

Esse hábito de estar cronicamente on-line consome todo e qualquer tempo livre que poderíamos passar fazendo qualquer outra coisa no mundo real. Já reparou como frequentemente recorremos ao celular enquanto esperamos o elevador ou fazemos algum trajeto de transporte? Ou então quando simplesmente queremos consultar as horas ou uma única notificação e, quando nos damos conta, já passamos 40 minutos rolando o feed do Instagram despropositadamente?

Na contramão desse impulso desenfreado, os chamados Offline Clubs têm ganhado cada vez mais adeptos ao redor do mundo, especialmente entre os jovens que desejam romper com esse ciclo vicioso. O movimento fundado na Holanda por Jordy, Ilya e Valentijn já se expandiu para outras regiões da Europa, como Milão, Londres, Paris, Barcelona, Berlim e Lisboa, e segue crescendo desde então.

O Offline Club faz parte de um movimento global e consiste em uma comunidade que incentiva o detox digital e ajuda pessoas a trocarem o tempo de tela pelo tempo real, com o objetivo de juntá-las de forma off-line a partir de eventos e retiros sem telefone, onde elas possam se desligar, relaxar, conectar-se e se divertir. Os idealizadores afirmam que esse clube pretende ser uma casa longe de casa, um espaço calmo onde as pessoas possam tirar uma pausa das telas, desfrutar de um tempo off-line para se dedicar a hobbies e se conectar com outras pessoas de forma autêntica.

A proposta consiste em encontros e atividades em conjunto, sem celulares envolvidos. Desde clubes de leitura, atividades manuais, festas de escritas, encontros para conversar ou simplesmente para relaxar. Nesse tipo de evento, o intuito não é fotografar e compartilhar o que está acontecendo, mas sim se envolver de forma prática e intencional nas atividades — coisa que, ultimamente, parece que estamos desaprendendo a fazer.

A verdade é que existe uma fatiga inevitável, fruto desse estado altamente conectado. Não por acaso, esses retiros off-line, e até mesmo a retomada do desejo de ocupar os Terceiros Lugares, tornam-se propostas muito atrativas, principalmente para a população mais jovem, que é também a mais conectada. O objetivo é devolver a atenção para as pessoas por meio da pausa e da reconexão temporal e espacial, longe do rolar de feed em busca de mais 15 segundos de dopamina. No fim das contas, esse parece ser o antídoto simples, porém extremamente eficaz, de que precisamos de tempos em tempos.

E não é preciso, necessariamente, participar de um retiro off-line para fazer um detox digital. Pode ser uma caminhada curta pelo bairro, um momento dedicado à leitura ou a algum trabalho manual de que você goste, algum hobby, brincar com o seu bichinho de estimação, escrever por alguns minutos, entre tantas outras possibilidades. Qualquer momento pode ser off-line se você deixar o celular de lado por um tempinho. E, talvez, seja realmente o momento de fazermos uma pausa. ■


Camila Barreto é a vencedora do Projeto Escrita 2019 e, desde então, colabora como colunista da revista INSPIRE-C. É graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Alexis Brown/Unsplash

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