Texto | CAMILA BARRETO
Imagine um exemplar raríssimo de um livro antigo, daqueles que são superdifíceis de encontrar e que talvez seja o único no mundo. Agora imagine esse exemplar sendo, literalmente, fatiado por uma máquina e tendo as suas páginas digitalizadas rapidamente para alimentar uma inteligência artificial para, por fim, ser triturado e seguir para a reciclagem. Seria um grande alívio se isso fosse apenas uma distopia cinematográfica, mas, na verdade, essa é a realidade que assola os nossos tempos.
Empresas de IA estão comprando milhões de livros físicos, digitalizando as páginas e destruindo os originais. O chamado “Projeto Panamá” é uma iniciativa atribuída à Anthropic, criadora do assistente Claude, que tem como objetivo digitalizar livros físicos para utilizar esse conteúdo no desenvolvimento e treinamento de inteligência artificial.
Funciona assim: os livros são comprados de intermediários, como sebos e livrarias, e a digitalização é feita a partir de um corte na lombada do livro; logo em seguida, as páginas são separadas e digitalizadas pelos scanners da máquina. A partir daí, o original físico deixa de existir, sobrando apenas a versão digital da obra.
A matéria publicada pelo jornal norte-americano The Washington Post noticiou detalhes do processo judicial que empresas de IA, como a Anthropic, vêm enfrentando por conta dos direitos autorais das obras destruídas. Nesta reportagem em que foram revelados os documentos internos da Anthropic, havia até mesmo um comentário interno em que a empresa exprimia o desejo de manter o projeto em segredo.
Os livros procurados pelos laboratórios de IA foram escritos antes de 2022, por conta da baixa probabilidade de esses materiais terem sido criados com a ajuda de inteligência artificial. Isso porque os conteúdos produzidos por modelos de IA generativa atualmente vêm se retroalimentando, fazendo com que esse conteúdo digital fique cada vez mais — pasmem — artificial. Daí o desejo de incluir no repertório desses modelos textos escritos exclusivamente por seres humanos.
Vale ressaltar que muitas dessas obras são raras e nunca foram digitalizadas antes, incluindo livros fora de catálogo, obras acadêmicas antigas e até mesmo exemplares únicos que jamais poderão ser substituídos. Pode ser que você esteja se perguntando se não haveria outra maneira de realizar esse processo sem, necessariamente, destruir o livro; e a resposta é sim. O grande problema é que a digitalização destrutiva é muito mais rápida, funcionando quase como um processo de produção — ou melhor, de destruição — em massa, no qual a perda do original não é uma subtração que entra na equação das grandes empresas, que consideram apenas os lucros.
Acrescenta-se a tudo isso o fato de que não há nenhuma intenção de democratizar esse conteúdo. Ou seja: não é como se esses livros fossem digitalizados para serem amplamente acessados pelas pessoas, eles estão servindo apenas para alimentar inteligências artificiais generativas. O que existe, então, é uma apropriação da produção intelectual da humanidade e, em suma, da destruição do conhecimento. Existe um seleto grupo que decide secretamente quem vai acessar o quê. Trata-se, portanto, de um poder político sobre o conhecimento e sobre o acesso à história da humanidade, do que será passado adiante e do que será apagado definitivamente.
A destruição de obras literárias não é algo recente e, curiosamente, sempre andou de mãos dadas com movimentos extremistas como forma de censura e controle — basta lembrar dos episódios ocorridos durante as duas Guerras Mundiais, em que bibliotecas foram incendiadas e livros foram queimados em praça pública. A destruição de livros é um ato político que dita e controla quem terá acesso ao conhecimento e à memória pública.
Sem acesso a esse conhecimento literário, histórico, político e social, quem moldará o discurso e o curso da história daqui para a frente? ■
Camila Barreto é a vencedora do Projeto Escrita 2019 e, desde então, colabora como colunista da revista INSPIRE-C. É graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Garrett McQuown na Unsplash | Michael Dziedzic na Unsplash Vanburn