Texto | RONALDO CAMPOS
As ondas de calor cada vez mais intensas transformaram o acesso ao resfriamento em uma questão de saúde pública. Nesse contexto, o ar-condicionado salva vidas, especialmente entre idosos, crianças e pessoas vulneráveis. No entanto, tratá-lo como a principal resposta ao aquecimento global revela uma contradição: tenta-se combater um problema criado pelo modelo de desenvolvimento atual recorrendo a uma tecnologia que, embora necessária em alguns casos, também aumenta o consumo de energia e contribui para a emissão de gases de efeito estufa.
Além disso, essa solução está longe de ser universal. Para milhões de pessoas, sobretudo nos países em desenvolvimento, comprar um aparelho e arcar com a conta de eletricidade é simplesmente inviável. O conforto térmico, portanto, torna-se um privilégio. Defender que todos resolvam o problema instalando aparelhos em suas casas ignora profundas desigualdades sociais e transfere para o indivíduo a responsabilidade por uma crise que exige respostas coletivas.
A adaptação às mudanças climáticas passa por escolhas urbanas e arquitetônicas muito mais inteligentes. Cidades com mais áreas verdes, arborização, parques e telhados vegetados reduzem significativamente as ilhas de calor. A expansão de transportes públicos de baixa emissão, como ônibus elétricos, aliada ao incentivo ao uso da bicicleta e às caminhadas em trajetos viáveis, diminui a poluição e melhora a qualidade de vida. Essas medidas atacam as causas do problema, e não apenas seus sintomas.
A própria arquitetura oferece exemplos inspiradores. O arquiteto burquinense Diébédo Francis Kéré tornou-se referência mundial ao desenvolver edifícios que utilizam ventilação cruzada, iluminação natural e materiais locais para manter ambientes agradáveis mesmo em regiões de clima extremo, reduzindo drasticamente a necessidade de climatização artificial. Trata-se de uma abordagem baseada na inteligência do projeto, e não no aumento do consumo energético.
A crise climática exige adaptação, mas também transformação. O ar-condicionado continuará sendo indispensável em hospitais, escolas, abrigos e durante eventos extremos de calor. Ainda assim, confiar exclusivamente nessa tecnologia significa aceitar uma lógica de remediação permanente. A resposta mais eficaz está em cidades planejadas para o clima do século XXI, em construções mais eficientes e em políticas públicas capazes de reduzir emissões sem transformar o direito ao conforto térmico em mais um privilégio de poucos. ■
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Christie Chau/Unsplash