Texto | RONALDO CAMPOS

O ciclo empresarial moderno parece condenado a um paradoxo: empresas crescem justamente quando se afastam daquilo que as fez crescer. A recente onda de “refounding”, em que CEOs resgatam o espírito original de suas marcas, revela mais que uma tendência — revela um sintoma. Em meio à pressão por inovar sem descanso, muitas organizações deixam de responder à pergunta mais simples e mais estratégica: o que nos torna especiais?

Nike e Starbucks ilustram bem esse desvio. Depois de anos priorizando eficiência, escala e conveniência, perceberam que tinham sacrificado parte de sua alma. E essência perdida não se recupera com métricas ou automação. A obsessão da Nike pelos atletas e o ambiente acolhedor do Starbucks não são slogans de marketing; são estruturas identitárias que nunca deveriam ter sido diluídas.

A história corporativa está repleta de alertas. A Lego quase se desfigurou ao tentar ser tudo, menos Lego. A Apple renasceu quando Steve Jobs teve a coragem de cortar excessos e devolver simplicidade e propósito ao centro da empresa. O problema, muitas vezes, não é falta de visão, mas excesso de visão — expansão acelerada, dispersão estratégica e uma sequência de decisões racionais que, combinadas, afastam a empresa de si mesma.

“Refounding”, portanto, não é um olhar saudosista para o passado. É um ato de lucidez estratégica. Um lembrete de que nenhuma organização sustenta crescimento se perder a clareza sobre quem é e por que existe. Resgatar a essência não é nostalgia. É sobrevivência.


Fonte consultada | The Economist, “When companies lose their way”, edição de novembro de 2025.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Imagem capa | RONALDO CAMPOS

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