Texto | RONALDO CAMPOS

Durante décadas, o sistema internacional de arte funcionou como um mapa silencioso de poder: o Norte produzia, legitimava e exportava; o Sul inspirava, mas raramente ocupava o centro. A ascensão recente da arte africana — visível em eventos como a Bienal de Veneza — não é apenas uma correção histórica. É um deslocamento mais profundo: o próprio conceito de centro está sendo reconfigurado.

A escolha de Koyo Kouoh como diretora artística, ainda que interrompida por sua morte, simboliza essa inflexão. Não se trata apenas de representatividade, mas de perspectiva. Ao propor temas como “In Minor Keys”, a curadoria desloca o olhar da grandiloquência para a escuta — da imposição para a sutileza. Em um mundo saturado por excesso de visibilidade e ruído, a ideia de “ouvir” como gesto curatorial é, por si só, uma crítica.

Esse movimento encontra eco fora da África. No Brasil, por exemplo, instituições e artistas têm buscado revalorizar matrizes culturais historicamente marginalizadas, como as produções afro-brasileiras e indígenas. Ainda assim, persiste um paradoxo: enquanto o mundo passa a reconhecer a potência criativa africana, países como o Brasil, profundamente conectados a essa herança, muitas vezes ainda a tratam como periferia interna.

O caso da Investec Cape Town Art Fair é revelador. Ao adotar o tema “Listen”, a feira tensiona a lógica tradicional do mercado, que privilegia velocidade e consumo. Ao propor pausa, reflexão e troca, sugere que a arte pode ser mais do que mercadoria: pode ser infraestrutura de pensamento. É uma inversão sutil, mas poderosa.

No fundo, o que está em jogo não é apenas a ascensão da arte africana, mas a crise de um modelo. Quando novas vozes entram em cena, não ampliam apenas o repertório — alteram as regras. O centro, afinal, não é um lugar fixo. É uma construção histórica. E, como toda construção, pode — e talvez deva — ser deslocada.


Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto/Divulgação | Monocle: ICTAF 2026’s approach is rooted in dialogue (Image: Anthea Pokroy/ICTAF)

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