Texto | ANDERSON BORGES COSTA

Você gosta de ouvir histórias? Pedia para seus pais e avós contarem historinhas na cama, antes de dormir? A infância é uma época de explorar a imaginação. Imaginamos histórias quando acordados e gostamos de dormir ouvindo histórias. E, quem sabe, continuar as histórias durante o sono. E sonhar histórias. Sonho e realidade gostam de andar de mãos dadas. Por isso, adoramos mergulhar no universo da ficção. Se você quiser caminhar segurando a mão de histórias fictícias que desfilam sem vergonha de fingir que são verdadeiras, indico a leitura do recém-lançado Bolhas de ar rarefeito, livro de contos de Thiago Costa Franco.

Nesta antologia, o leitor é desafiado, a cada página, a desconfiar do narrador, desconfiar dos enredos, pois tudo pode não ser verdade, por ser apenas ficção. E, justamente por ser ficção, pode tocar profundamente os olhos de quem percorre as linhas do livro.

Thiago escreve 20 contos nos quais fato e invenção se fundem e se confundem, deixando o leitor imerso em uma camada oniricamente empírica em que sonos noturnos e dias em vigília dão o tom de contos que se fundem em crônicas, que se fundem em ensaios sobre contos, que se fundem em textos jornalísticos em uma grande bolha transparente.

Ler Bolhas de ar rarefeito é como entrar numa brincadeira de fingir de acreditar. A brincadeira começa antes mesmo da primeira história, pois, embora você veja no sumário que o livro é composto por 20 contos, eu diria que são, na verdade, 21, pois ao primeiro conto o autor dá o título de “Prefácio” — o que pode não ser verdade.

Thiago Costa Franco parece brincar de escrever. Ele chama de conto uma história narrada em prosa, mas narra-a com trechos em versos. Ele chama de conto o que é claramente uma crônica. Ele chama de conto a escrita de um poema. Ele chama de conto uma história que é narrada como uma notícia de jornal. Ou seja, os contos de Bolhas de ar rarefeito são uma colcha de retalhos costurados em 20 contos que insistem em não se separar. São 20 histórias irmanadas em um mesmo e rarefeito tecido. E ainda tem a 21ª história, que também quer entrar nessa brincadeira.

As bolhas deste livro são um gostoso exercício de descobertas. O autor esconde nas entrelinhas de seus causos uma série de Easter eggs, que podem passar despercebidos, mas, se achados, dão um novo tempero às histórias. Há, por exemplo, no conto “Ode ao Ódio”, a tentativa de criar um poema por dois personagens que conversam em uma rua de Osasco. Um detalhe que pode facilmente passar despercebido é que o nome da rua em que esses personagens estão é Guilherme de Almeida. Se você descobrir quem foi Guilherme de Almeida, perceberá que o conto ganhará novas cores. Essas brincadeiras se espalham por muitas páginas, em bolhas rarefeitas.

Os contos trazem personagens mais simples, como um zelador de prédio, que pode representar um país com andares que colocam pessoas vivendo sobre outras pessoas, deixando para elas o ar quase rarefeito. Os contos fazem menção à tradição oral do Brasil, fazem uma homenagem aos causos que tanto enriquecem a nossa cultura popular. São bolhas de uma tradição rarefeita, quase transparente, composta de uma fina camada de ar, mas que ainda não foi estourada.

Existe uma dinâmica de dualidades na escrita de Thiago Costa Franco. Há alternâncias do foco narrativo, ora em primeira pessoa ora em terceira pessoa, ora dia ora noite, ora empírico ora onírico, ora no aberto do campo ora no interior de uma casa ou de um bar, ora no topo de uma montanha ora no meio das nuvens, ora ficção ora realidade. O leitor é levado a um passeio pelo folclore de seres fantásticos contado pela boca de personagens reais, quase sempre pessoas que habitam os estratos mais baixos da desigual sociedade brasileira.

Apesar de dinâmica, a narrativa, por vezes, peca por criar um narrador que gosta de falar, mesmo quando não precisa. Os diálogos, ponto forte nos contos, já dão conta sozinhos de entregar questões sociais relevantes, sem que o narrador precise explicar em detalhes o que as falas sugerem, como no conto “No Bar do Mané Branco”, em que homens trabalhadores bebem sua cachaça quando são surpreendidos pela chegada da polícia, cuja autoridade abusiva é clara pelos diálogos, mesmo sem a intervenção do narrador, que apenas reforça o ambiente já apresentado.

No entanto, após ler o último conto, ficamos com a sensação gostosa de que Bolhas de ar rarefeito são uma fricção na ficção, que desperta emoções variadas: empatia, revolta, dó, raiva, risos, lágrimas. E aí, quer ler este livro dormindo ou acordado?

Boas leituras!

Bolhas de ar rarefeito, de Thiago Costa Franco
Editora Sinete


Anderson Borges Costa
Formado e pós-graduado em Letras (Português/Inglês/Alemão) pela Universidade de São Paulo. Professor de Português e Literatura na Escola Internacional St. Nicholas. Escritor, autor dos romances Professoras, Rua Direita e Avenida Paulista, 22, do livro de contos O livro que não escrevi e de peças teatrais.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Alexander Dummer/Unsplash

Share: