Texto | CAMILA BARRETO
O segundo semestre de 2025 foi marcado por intensos protestos em diferentes países do chamado Sul Global, como Nepal, Madagascar, Indonésia, Marrocos, Quênia, Filipinas e Peru. Milhares de manifestantes tomaram as ruas para protestar contra a corrupção e a desigualdade social, e a pressão popular massiva foi capaz de dissolver parlamentos e derrubar líderes políticos em algumas dessas regiões. Essas manifestações entraram para a história como os “Protestos da Geração Z”, pois registraram a primeira vez em que jovens dessa geração — nascidos entre a segunda metade dos anos de 1990 e a década de 2010 — foram às ruas em multidões, movidos por uma onda de indignação e por um desejo coletivo de mudança. Dentre elas, a manifestação mais intensa ocorreu no Nepal, onde a Suprema Corte e o parlamento foram incendiados pelos manifestantes.
Historicamente, a juventude sempre se destacou por seu poder de mobilização política e pela sua participação na luta social. Além de ser o grupo que “não tem nada a perder”, é também aquele que mais anseia por um futuro melhor. É justamente dessa combinação entre urgência, esperança e inconformismo que nascem alguns dos movimentos mais decisivos de transformação social ao longo da história.

Mas não seria exagero dizer que a Geração Z enfrenta um dos cenários mais desafiadores até então. Em meio à instabilidade financeira, às constantes ameaças geopolíticas e à crise climática que se agrava mais a cada dia, os jovens dessa geração vêm sendo marinados em um caldo de descontentamento, alimentado pela percepção de que estão herdando um mundo falido, com promessas frágeis e problemas absolutamente urgentes. O que garante a essa juventude um bom futuro?
A princípio, cada país teve um estopim diferente para as manifestações, decorrente das demandas locais. No Marrocos, oito mulheres grávidas morreram devido à precariedade do sistema público, enquanto o governo concentra atualmente toda a sua atenção e recursos nos preparativos para a Copa do Mundo de 2030, que será sediada no país. No Peru, os protestos começaram após uma reforma previdenciária que obrigaria os cidadãos a aderir a um provedor de pensão específico. Tanto na Indonésia como no Nepal, a revolta começou por causa da ostentação nas redes sociais de filhos de políticos, que exibiam artigos de luxos enquanto a população enfrentava sérias dificuldades econômicas.
No caso do Nepal, mais especificamente, o que começou com o banimento das redes sociais — justamente no contexto em que a população criticava a ostentação dos chamados “Nepo Babies” — culminou em protestos em massa liderados por jovens que, embora inicialmente tenham se mobilizado por causa da proibição das redes sociais no país, foram às ruas também movidos pela revolta contra a corrupção e a desigualdade social.
O que mais chama a atenção nesses protestos é o papel desempenhado pelas redes sociais. Os vídeos virais no TikTok dessas manifestações tecem narrativas quase dramáticas e, por que não, heroicas. As plataformas digitais operam como espaços de mobilização e convocação para os atos, a partir dos quais esses jovens se organizam entre si. Além disso, praticamente tudo é transmitido imediatamente para o mundo, de modo que jovens se inspiram uns aos outros por meio do ambiente digital numa rede de conexão global.
Após a renúncia do primeiro-ministro do Nepal e a dissolução do parlamento pelo presidente, os jovens iniciaram uma série de debates e votações no Discord, uma plataforma de comunicação originalmente popular entre gamers, mas que também se tornou um espaço para organização e deliberação de comunidades on-line. Foi por meio de diversas votações informais no Discord que Sushila Karki, de 73 anos, foi eleita pela Geração Z como primeira-ministra interina do país.
Vale destacar, é claro, que essas manifestações foram brutalmente reprimidas pelas forças policiais, deixando mortos e feridos. Embora ainda seja difícil mensurar os efeitos colaterais desses movimentos no contexto político local, alguns desdobramentos já mostram os impactos políticos dessas mobilizações. Em Madagascar, por exemplo, os protestos culminaram na fuga do presidente Andry Rajoelina, que deixou o país em outubro, depois que os militares se uniram aos jovens nas ruas e assumiram o controle das Forças Armadas. No Peru, por sua vez, mesmo após a queda da presidente Dina Boluarte, os jovens seguiram nas ruas para demonstrar sua insatisfação, desafiando a violenta repressão policial.
Ainda assim, essas mobilizações indicam o que poderia ser considerado, ao menos em parte, um despertar global da juventude. A geração que já nasceu conectada levanta sua voz contra a corrupção justamente porque é a corrupção que desvia recursos de itens básicos, como saúde e educação, e agudiza a falta de perspectiva por conta do contexto econômico. Esses acontecimentos mostram que a Geração Z não apenas está disposta a confrontar governos negligentes e estruturas políticas falidas, como também se organiza para lutar por um futuro melhor, deixando claro que sua mobilização pode realmente marcar uma nova era de engajamento político e social. ■
Camila Barreto é a vencedora do Projeto Escrita 2019 e, desde então, colabora como colunista da revista INSPIRE-C. Atualmente, cursa Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Li An Lim e Kosshu Kunii/Unsplash