Política, Religião, Ideologia e a Negação da Cidadania
Texto | GERSON CARLOS TIBÚRCIO e NORMA TIBÚRCIO DE PAULA
Clube de Leitores, 2026

Introdução
A cidadania moderna é frequentemente apresentada como uma conquista histórica consolidada, garantida por dispositivos legais, instituições democráticas e valores universais. No entanto, a experiência social concreta revela uma contradição persistente: os mesmos sistemas que afirmam proteger a cidadania operam, muitas vezes, como mecanismos de sua negação. Política, religião e ideologia, em vez de funcionarem como eixos de orientação e emancipação, convertem-se em obstáculos recorrentes à participação plena do sujeito na vida social.

Este artigo parte da hipótese de que a negação da cidadania não é um desvio ocasional, mas um fenômeno estrutural, reproduzido ciclicamente por meio de discursos, práticas institucionais e formas simbólicas de poder. Denomina-se esse processo de “ciclo do obstáculo”, no qual instâncias historicamente associadas à organização social passam a bloquear o exercício crítico, a autonomia e o reconhecimento do cidadão.

Ao longo do texto, analisa-se como política, religião e ideologia operam nesse ciclo, destacando seus efeitos na formação do sujeito, na esfera pública e na própria ideia de democracia. O objetivo não é negar a relevância dessas esferas, mas compreender como sua captura por interesses de dominação produz alienação, exclusão e esvaziamento da cidadania.

1. Política: da representação ao afastamento do cidadão
A política, em sua concepção clássica, constitui o espaço da deliberação coletiva e da construção do bem comum. Contudo, na prática contemporânea, observa-se um distanciamento crescente entre representantes e representados, acompanhado pela profissionalização do poder e pela transformação da política em espetáculo discursivo.

Nesse contexto, a cidadania é reduzida ao ato formal do voto, enquanto decisões estruturais permanecem concentradas em elites políticas e econômicas. A retórica da participação convive com práticas que desestimulam o engajamento crítico, substituindo o debate público por polarizações artificiais, slogans ideológicos e estratégias de desinformação.

O ciclo do obstáculo manifesta-se quando a política deixa de ser instrumento de mediação social e se torna um campo de disputa simbólica cujo principal efeito é a apatia ou a radicalização do cidadão. Em ambos os casos, o resultado é o enfraquecimento da democracia substantiva e a naturalização da exclusão.

2. Religião: entre sentido existencial e controle social
A religião ocupa um lugar ambíguo na formação das sociedades. Por um lado, oferece sentido, pertencimento e orientação ética; por outro, pode ser instrumentalizada como mecanismo de controle social e legitimação de hierarquias.

No ciclo do obstáculo, a religião deixa de operar como experiência espiritual e assume a função de norma absoluta, convertendo crenças em dogmas políticos e morais. Quando isso ocorre, a diversidade é tratada como ameaça, e a cidadania passa a ser condicionada à adesão a determinados valores religiosos.

Esse processo compromete o princípio da laicidade e restringe o espaço público, transformando direitos em concessões morais. A fé, então, deixa de ser escolha individual e passa a funcionar como critério de inclusão ou exclusão social, negando o caráter universal da cidadania.

3. Ideologia e a naturalização da dominação
A ideologia desempenha papel central na manutenção do ciclo do obstáculo ao apresentar relações historicamente construídas como naturais, inevitáveis ou imutáveis. Ela atua na produção de consensos artificiais, obscurecendo contradições sociais e deslocando a responsabilidade coletiva para o indivíduo.

Nesse sentido, a ideologia não se limita a sistemas políticos formais, mas permeia discursos cotidianos, práticas educacionais e meios de comunicação. A cidadania é reconfigurada como mérito individual, enquanto desigualdades estruturais são justificadas como falhas pessoais.

Ao internalizar essas narrativas, o sujeito passa a reproduzir o próprio sistema que o exclui, tornando-se agente involuntário da negação de seus direitos. O ciclo do obstáculo se fecha quando a crítica é substituída pela adaptação e pela resignação.

4. Educação, consciência crítica e ruptura do ciclo
A educação surge como um campo decisivo na disputa entre emancipação e dominação. Quando orientada pela crítica, ela possibilita a formação de sujeitos capazes de questionar discursos, identificar interesses e reivindicar direitos. Contudo, quando subordinada à lógica instrumental, a educação reforça o ciclo do obstáculo ao priorizar a adaptação ao sistema em detrimento da reflexão.

A ausência de uma educação crítica favorece a aceitação passiva de narrativas políticas, religiosas e ideológicas que negam a cidadania. Romper esse ciclo exige não apenas reformas institucionais, mas uma transformação profunda na forma como o conhecimento é produzido, transmitido e apropriado socialmente.

Conclusão
O Ciclo do Obstáculo revela que a negação da cidadania não é resultado exclusivo de regimes autoritários explícitos, mas um processo contínuo que se reproduz no interior das próprias estruturas democráticas. Política, religião e ideologia, quando capturadas por interesses de poder, deixam de orientar a vida social e passam a bloqueá-la.

A análise apresentada neste artigo demonstra que a cidadania não pode ser compreendida como um dado garantido, mas como uma conquista permanente, sempre ameaçada por processos de alienação simbólica e institucional. Reconhecer o ciclo do obstáculo é o primeiro passo para sua ruptura.

A superação desse ciclo depende da revalorização do pensamento crítico, da educação emancipadora e da reconstrução do espaço público como lugar de diálogo, pluralidade e participação efetiva. Somente assim política, religião e ideologia poderão recuperar seu potencial emancipador, deixando de negar a cidadania para, enfim, sustentá-la.


Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Joeyy Lee/Unsplash

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